O martírio a que está sendo submetido Bento XVI tem precedentes na Igreja. Os papas são chamados ao martírio, alguns, inclusive, depois de mortos veem o seu nome arrastado na lama. É o caso de Pio XII, que alguns levianamente inventaram ser o "papa de Hitler".
Em todo caso, é muito interessante ler a declaração que Einstein, judeu, físico, prêmio Nobel, deu à Time Magazine de 1940, pág. 40:
"Sempre amei a liberdade. Quando acontece a revolução na Alemanha [ele estava se referindo à ascensão de Hitler ao poder] olhei para as universidades, pensando que deveriam ter defendido a liberdade, sabendo muito bem que se tinham gloriado da sua devoção à liberdade; mas não, as universidades foram imediatamente obrigadas a calar-se. Depois olhei para os randes editores dos jornais que, no passado, em editoriais inflamados tinham proclamado o seu amor à liberdade. mas também eles, como as universidades, foram silenciados no espaço de poucas semanas. Só a Igreja se opôs plenamente à campanha de Hitler que pretendia suprimir a verdade. Eu nunca tinha tido um interesse particular pela Igreja, mas agora sinto por ela grande amor e admiração, porque somente a Igreja teve a coragem e a perseverança de defender a verdade intelectual e a liberdade moral. Por isso, sou obrigado a confessar que o que antes tinha desprezado agora elogio sem qualquer reserva".
Leituras, opiniões e ideias de um católico. Contatos no email paulovjacobina@gmail.com
sábado, 10 de abril de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
A Parábola do semeador
Preparei um texto para usar na catequese, sobre a parábola do semeador. São quatro jovens falando das suas próprias experiências com Jesus, para que os crismandos possam comparar com os "terrenos" de que Jesus fala em Mt 13. Vai o primeiro, que se relaciona com aquela semente que caiu à beira do caminho e foi devorada pelo maligno:
Eu levo a minha avó na missa todo domingo. Na verdade eu tô a fim é de ficar com o carro dela. Eu já fiquei com vontade de entrar, até olhei e vi umas meninas bonitinhas, mas todo mundo tava de calça dentro da Igreja e eu tava de bermuda, resolvi não entrar.
Outro dia eu cheguei e a missa não tinha acabado. Fiquei olhando e achei interessante. O padre tava falando alguma coisa sobre paz, perdão, fraternidade, aquele papo bonito. Mas isso é conversa fiada, o que vale no mundo mesmo é ser esperto e ter grana, os bobos ficam lá rezando e não resolvem nada. Além do mais eu estava com uma ressaca braba, morrendo de dor de cabeça, nem entendi direito aquela conversa. Não fiz catequese não, minha família achou que quando eu crescesse eu escolheria a religião que eu achasse melhor. Não acho nenhuma melhor, acho tudo igual. Não que eu não acredite em Deus, eu até fiz uma promessa uma vez para passar na recuperação, nem me lembro o que é que eu prometi, mas eu estudei e passei. Esse papo de Jesus, de amor, de fraternidade é muito chato. Tudo quanto é doido tá aí falando em Jesus, cheio de igreja de crente berrando por aí, querem é tirar o dinheiro da gente. E tem aquele papo de reencarnação, né? São muitos os caminhos pra Deus, eu escolhi esse barato da reencarnação porque é mais legal, na próxima encarnação eu rezo, nesta eu quero é me dar bem. Sei lá, se tudo é religião, é legal, é bom, então nada faz diferença e eu vou é viver minha vida!
Eu levo a minha avó na missa todo domingo. Na verdade eu tô a fim é de ficar com o carro dela. Eu já fiquei com vontade de entrar, até olhei e vi umas meninas bonitinhas, mas todo mundo tava de calça dentro da Igreja e eu tava de bermuda, resolvi não entrar.
Outro dia eu cheguei e a missa não tinha acabado. Fiquei olhando e achei interessante. O padre tava falando alguma coisa sobre paz, perdão, fraternidade, aquele papo bonito. Mas isso é conversa fiada, o que vale no mundo mesmo é ser esperto e ter grana, os bobos ficam lá rezando e não resolvem nada. Além do mais eu estava com uma ressaca braba, morrendo de dor de cabeça, nem entendi direito aquela conversa. Não fiz catequese não, minha família achou que quando eu crescesse eu escolheria a religião que eu achasse melhor. Não acho nenhuma melhor, acho tudo igual. Não que eu não acredite em Deus, eu até fiz uma promessa uma vez para passar na recuperação, nem me lembro o que é que eu prometi, mas eu estudei e passei. Esse papo de Jesus, de amor, de fraternidade é muito chato. Tudo quanto é doido tá aí falando em Jesus, cheio de igreja de crente berrando por aí, querem é tirar o dinheiro da gente. E tem aquele papo de reencarnação, né? São muitos os caminhos pra Deus, eu escolhi esse barato da reencarnação porque é mais legal, na próxima encarnação eu rezo, nesta eu quero é me dar bem. Sei lá, se tudo é religião, é legal, é bom, então nada faz diferença e eu vou é viver minha vida!
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parabola semeador terreno semente beira caminho
terça-feira, 6 de abril de 2010
o Capítulo III
O capítulo III do livro que nunca escrevi. Parei porque achei que não estava ficando lá muito original, os últimos parágrafos da fala do frei, depois que eu escrevi, me soaram muito Jean Guitton. Eu sempre paro um texto quando descubro que outra pessoa já escreveu antes, e bem melhor do que eu, sobre o assunto. Isso está ocorrendo aqui, também.
Cap. III
Eu não consigo acordar antes do frei, ele sempre levanta mais cedo para rezar suas laudes. Mas mesmo assim, acordei bem cedo. Fiquei pensando no que Fernanda me dissera no dia anterior, sobre a minha busca freudiana por uma mãe morta. Sei lá, talvez ela tenha razão. Eu bem queria que ela tivesse, porque seria mais fácil se tudo que eu estivesse procurando fosse a minha mãe morta.
Na verdade, eu cresci com a tia Terezinha. Maravilhosa, um trator. Melhor dizer um tanque de guerra. Quem tem a tia Terezinha não tem tempo para ter frescuras psicológicas. Ainda me lembro daquele dia, aos oito anos de idade, em que ela me fez voltar andando para casa porque eu não quis rezar o terço no caminho da chácara. Caminhei nove quilômetro soltando fumaça de raiva. Não foi a primeira vez que eu voltei do meio do caminho andando, por desobedecer a Tia.
O dia amanheceu nebuloso em Jerusalém, o trânsito já estava ruim antes das sete da manhã. Aqui na parte antiga é um sufoco. Desci para o restaurante do hotel, para o café da manhã. O frei já estava lá, rezado, escovado e banhado, luzindo como o éden no primeiro dia da criação.
Bom dia, irmão.
Bom dia, Probo, a paz de Cristo. - Ele puxou a cadeira para me receber. Ficamos um pouco em silêncio, aproveitando o café da manhã, com o qual eu ainda não me costumara. Peixe, coalhada seca, salada verde, pão árabe, tanta coisa diferente.
Às vezes eu não entendo, Probo. Não sei direito porque você insistiu tanto para que eu viesse, mesmo com uma despesa tão alta como a que você está arcando. Você parece não ter muita paciência com as coisas que eu falo.
Não ligue para a minha rabugice, Irmão, pode falar. Estar ao seu lado é uma aula de cultura. - falei, tentando ser delicado. Também não sei ao certo por que o convidei, mas não vou dizer isso a ele. Prossegui, para desanuviar – A Fernanda disse ontem, no telefone, que essa busca pela arca é uma metáfora para a minha busca por mim mesmo.
Hum, - grunhiu o Frei. - A arca não é uma metáfora, é uma caixa de madeira revestida de ouro, na qual está depositada a lei de Deus, as tábuas recebidas por Moisés no Sinai. Para fazer uma busca metafórica de si mesmo a gente não precisa sair do quarto. Pode viver como viveu Kant, na mais rígida rotina pessoal, sem nunca sair da sua aldeia nem fazer nada diferente. Acho que você não está buscando algo que está em você mesmo, senão não teria viajado tão longe. Seria uma imbecilidade, não é mesmo?
Mas será que no fundo ela não tem alguma razão?
Probo, a gente hoje se acostumou a pensar que nós somos Deus, que Deus somos nós, por isso toda busca nos parece uma busca interior. Mas você não é Deus, querido, lamento dizer. É por isso que a sua busca está te levando tão longe, porque você está buscando algo que sabe que não tem.
Mas eu não estou buscando a arca, não sou uma espécie de Indiana Jones subdesenvolvido, talvez eu esteja buscando conhecer a minha mãe um pouco mais, compensar a convivência que não tive com ela na infância...
O que te leva para fora de si mesmo de qualquer modo. Não há como conhecer melhor a sua mãe sem fazer um movimento para o exterior. E esse é um movimento profundamente cristão.
Como assim, Frei? - agora ele me surpreendera de verdade.
Está disposto a falar um pouco de filosofia? Dom Serra ainda vai demorar um pouquinho para chegar.
Coloquei um pouco daquela pasta de grão de bico no pão árabe e consenti.
Se lembra o quanto nós comentávamos sobre a cristandade medieval, com sua filosofia realista e profundamente teísta? Para os medievais o fundamento da realidade estava fora deles mesmos, estava totalmente em Deus, que era o Ser por excelência. E esse Ser por excelência manifestara-se concretamente a eles em Jesus. No caso dos antigos judeus, a coisa era ainda mais material: Deus deixava manifestações palpáveis, como pedras gravadas numa caixa de madeira e ouro. Ninguém precisa buscar a si mesmo quando tem Deus tão perto. No entanto, e paradoxalmente, é muito mais fácil encontrar-se: sou um servo daquele que deixou seus rastros na caixa, era o que pensavam os judeus. Ou sou um filho daquele que encarnou, como pensavam os cristãos. Claro que os questionamentos profundos florescem nesses contextos. Pense, por exemplo, no Livro de Jó, ou nas Confissões de Santo Agostinho. Mas há pouco espaço, em culturas assim, para angústias existenciais profundamente desestabilizadoras como o ceticismo radical moderno ou a psicanálise mitológica freudiana. Mas o distanciamento temporal, a complexidade da vida européia, a Reforma e o iluminismo levaram o homem para muito longe de Deus, porque o levaram pra muito longe da realidade exterior.
Como assim? - Não era fácil seguir o raciocínio do Frei.
O que você acha mais fácil, acreditar que Deus existe ou acreditar que eu existo?
Claro que é acreditar que você existe.
Pois é, assim parece, uma vez que você está me vendo e me ouvindo. Mas podíamos ambos ser apenas personagens de um livro, e não saberíamos disso.
Ih, Frei, desculpe, mas agora você viajou na maionese. Já bebeu assim de manhã cedo?
O Frei deu um sorriso largo.
Meu querido, mesmo os ateus mais empedernidos acreditam em alguma força absoluta que condiciona a realidade tal como eles a conhecem. Portanto, acreditam em alguma divindade. Pode ser a força da matéria transformada pelo trabalho humano, como os marxistas, ou a força da história, como os hegelianos, ou a força do tesão, como os freudianos. Mas há sempre uma força primeva condicionando todo o resto. Nisso todo mundo acredita. O difícil não é acreditar nisso, é acreditar que esta mesa aqui existe fora da minha cabeça...
Cap. III
Eu não consigo acordar antes do frei, ele sempre levanta mais cedo para rezar suas laudes. Mas mesmo assim, acordei bem cedo. Fiquei pensando no que Fernanda me dissera no dia anterior, sobre a minha busca freudiana por uma mãe morta. Sei lá, talvez ela tenha razão. Eu bem queria que ela tivesse, porque seria mais fácil se tudo que eu estivesse procurando fosse a minha mãe morta.
Na verdade, eu cresci com a tia Terezinha. Maravilhosa, um trator. Melhor dizer um tanque de guerra. Quem tem a tia Terezinha não tem tempo para ter frescuras psicológicas. Ainda me lembro daquele dia, aos oito anos de idade, em que ela me fez voltar andando para casa porque eu não quis rezar o terço no caminho da chácara. Caminhei nove quilômetro soltando fumaça de raiva. Não foi a primeira vez que eu voltei do meio do caminho andando, por desobedecer a Tia.
O dia amanheceu nebuloso em Jerusalém, o trânsito já estava ruim antes das sete da manhã. Aqui na parte antiga é um sufoco. Desci para o restaurante do hotel, para o café da manhã. O frei já estava lá, rezado, escovado e banhado, luzindo como o éden no primeiro dia da criação.
Bom dia, irmão.
Bom dia, Probo, a paz de Cristo. - Ele puxou a cadeira para me receber. Ficamos um pouco em silêncio, aproveitando o café da manhã, com o qual eu ainda não me costumara. Peixe, coalhada seca, salada verde, pão árabe, tanta coisa diferente.
Às vezes eu não entendo, Probo. Não sei direito porque você insistiu tanto para que eu viesse, mesmo com uma despesa tão alta como a que você está arcando. Você parece não ter muita paciência com as coisas que eu falo.
Não ligue para a minha rabugice, Irmão, pode falar. Estar ao seu lado é uma aula de cultura. - falei, tentando ser delicado. Também não sei ao certo por que o convidei, mas não vou dizer isso a ele. Prossegui, para desanuviar – A Fernanda disse ontem, no telefone, que essa busca pela arca é uma metáfora para a minha busca por mim mesmo.
Hum, - grunhiu o Frei. - A arca não é uma metáfora, é uma caixa de madeira revestida de ouro, na qual está depositada a lei de Deus, as tábuas recebidas por Moisés no Sinai. Para fazer uma busca metafórica de si mesmo a gente não precisa sair do quarto. Pode viver como viveu Kant, na mais rígida rotina pessoal, sem nunca sair da sua aldeia nem fazer nada diferente. Acho que você não está buscando algo que está em você mesmo, senão não teria viajado tão longe. Seria uma imbecilidade, não é mesmo?
Mas será que no fundo ela não tem alguma razão?
Probo, a gente hoje se acostumou a pensar que nós somos Deus, que Deus somos nós, por isso toda busca nos parece uma busca interior. Mas você não é Deus, querido, lamento dizer. É por isso que a sua busca está te levando tão longe, porque você está buscando algo que sabe que não tem.
Mas eu não estou buscando a arca, não sou uma espécie de Indiana Jones subdesenvolvido, talvez eu esteja buscando conhecer a minha mãe um pouco mais, compensar a convivência que não tive com ela na infância...
O que te leva para fora de si mesmo de qualquer modo. Não há como conhecer melhor a sua mãe sem fazer um movimento para o exterior. E esse é um movimento profundamente cristão.
Como assim, Frei? - agora ele me surpreendera de verdade.
Está disposto a falar um pouco de filosofia? Dom Serra ainda vai demorar um pouquinho para chegar.
Coloquei um pouco daquela pasta de grão de bico no pão árabe e consenti.
Se lembra o quanto nós comentávamos sobre a cristandade medieval, com sua filosofia realista e profundamente teísta? Para os medievais o fundamento da realidade estava fora deles mesmos, estava totalmente em Deus, que era o Ser por excelência. E esse Ser por excelência manifestara-se concretamente a eles em Jesus. No caso dos antigos judeus, a coisa era ainda mais material: Deus deixava manifestações palpáveis, como pedras gravadas numa caixa de madeira e ouro. Ninguém precisa buscar a si mesmo quando tem Deus tão perto. No entanto, e paradoxalmente, é muito mais fácil encontrar-se: sou um servo daquele que deixou seus rastros na caixa, era o que pensavam os judeus. Ou sou um filho daquele que encarnou, como pensavam os cristãos. Claro que os questionamentos profundos florescem nesses contextos. Pense, por exemplo, no Livro de Jó, ou nas Confissões de Santo Agostinho. Mas há pouco espaço, em culturas assim, para angústias existenciais profundamente desestabilizadoras como o ceticismo radical moderno ou a psicanálise mitológica freudiana. Mas o distanciamento temporal, a complexidade da vida européia, a Reforma e o iluminismo levaram o homem para muito longe de Deus, porque o levaram pra muito longe da realidade exterior.
Como assim? - Não era fácil seguir o raciocínio do Frei.
O que você acha mais fácil, acreditar que Deus existe ou acreditar que eu existo?
Claro que é acreditar que você existe.
Pois é, assim parece, uma vez que você está me vendo e me ouvindo. Mas podíamos ambos ser apenas personagens de um livro, e não saberíamos disso.
Ih, Frei, desculpe, mas agora você viajou na maionese. Já bebeu assim de manhã cedo?
O Frei deu um sorriso largo.
Meu querido, mesmo os ateus mais empedernidos acreditam em alguma força absoluta que condiciona a realidade tal como eles a conhecem. Portanto, acreditam em alguma divindade. Pode ser a força da matéria transformada pelo trabalho humano, como os marxistas, ou a força da história, como os hegelianos, ou a força do tesão, como os freudianos. Mas há sempre uma força primeva condicionando todo o resto. Nisso todo mundo acredita. O difícil não é acreditar nisso, é acreditar que esta mesa aqui existe fora da minha cabeça...
segunda-feira, 5 de abril de 2010
O capítulo II
Mais um capítulo do livro que não escrevi...
Voltamos para o hotel, no meio de Jerusalém. Realmente, Jerusalém é uma cidade linda, como diz o salmo: “Jerusalém, cidade bem edificada, num conjunto harmonioso”. A van circulava por ruas estreitas, cheias de casas de pedras. Realmente não parecia uma cidade que fora destruída e reconstruída 18 vezes, como o Frei me dissera. Ele parecia distante. Aproveitei para contemplar a cidade, seu frenesi. Na verdade, essa viagem tinha começado por iniciativa minha, não do Frei. Eu estava pagando sua passagem e estadia. Mas eu o havia chamado. Na verdade, eu não lhe contara, mas estava realizando uma angústia de muito tempo: estava procurando minha mãe.
Quer dizer, eu sabia muito bem que minha mãe tinha morrido há mais de trinta e cinco anos, e que a minha querida tia Marlene (a quem eu dedicava amor filial) me criara desde então como verdadeiro filho. Mas das poucas coisas que a minha mãe me deixara, a que mais me intrigava era o seu diário. Ela tinha uma fixação com a Arca de Davi, e colecionava referências históricas e bíblicas a esse objeto, que para mim era apenas mítico. Tudo isso, é claro, muito antes que se ouvisse falar em “Indiana Jones” e outras besteiras do gênero. A minha velha mãe, de quem tenho apenas vagas lembranças, nunca saiu da nossa cidade, nem fazia, acredito, o gênero aventureiro. Sua busca não passava de anotações numa velha agenda, basicamente anotações de passagens bíblicas ou de referências bibliográficas.
A noite começava a cair sobre Jerusalém. O aspecto da Cúpula da Rocha era magnífico, seu dourado reluzente sob os pôr do sol. O Frei me havia dito que aquilo era ouro mesmo: que, em Jerusalém, tudo o que parecia ouro era, de fato, ouro. A van se dirigia ao Hotel Notre Dame de Jerusalém, onde estávamos hospedados. Esse hotel, de propriedade católica, erguia-se majestoso na parte antiga da cidade, bem próximo aos antigos muros. Quando nos aproximamos do hotel, o Frei ainda estava retirado nos seus pensamentos, com o livro de orações nas mãos. Agora, depois de conviver com ele mais um pouco, eu já estava mais acostumado com seus hábitos inflexíveis: sempre que acordava, ao meio dia e às seis ele interrompia o que estava fazendo para, puxando seu velho breviário, rezar a liturgia das horas. Também estava me habituando a ir à missa todos os dias com ele, embora esses velhos rituais significassem pouco para mim. Eu queria somente saber um pouco mais sobre a arca, porque queria sabem um pouco mais sobre a minha mãe. Como eu disse, as minhas lembranças não passavam de velhas recordações muito vagas. Na verdade, eu lembrava muito mais claramente da sensação de conforto e proteção que ela me proporcionava na infância do que propriamente de sua imagem. E essas sensações fugidias, essa percepção tranquila de estar protegido, era tudo que me restara da minha mãe, morta tão jovem. Isso e aquela velha agenda com anotações sobre a arca. E foi por isso que eu resolvi vir a Jerusalém, queria saber mais sobre a arca e, conseqüentemente, sobre a minha mãe. Queria que ela significasse mais para mim do que umas fotos velhas e umas sensações meio vagas. E a coisa mais pessoal que ela me deixara fora o seu caderninho.
Quando chegamos no hotel, o Frei fechou seu livro de orações. Descemos da van e ele apontou a imagem de Maria que dominava a fachada do majestoso hotel.
Veja que coisa linda!
É só uma velha estátua, Frei. Nem é muito bem feita.
Não, é uma oração em pedra. Repare na humildade de Maria, veja como ela, de cabeça baixa, eleva o menino Jesus acima de si própria. E veja como o menino abençoa a cidade que o rejeitou.
O menino se ergue, orgulhoso – comentei, só para ter o que dizer.
Orgulhoso? Como assim? Um Deus criança? Um Deus frágil e pobre, criança humilde de cidade pequena, nascida numa caverna? Onde já se viu coisa assim? Não, não há nenhum orgulho, aí. Só a verdadeira majestade dos humildes. Nascido numa caverna, morto numa cruz, ressuscitado num túmulo emprestado. Abençoando a cidade que o rejeitou.
Resolvi ficar calado, por não ter mais o que dizer. Mas o Frei tinha razão. A estátua de fato transparecia o que ele estava dizendo, toda a simplicidade de Maria, cabisbaixa, elevando seu Deus menino para abençoar a cidade inteira. Entramos no belo saguão do hotel.
Frei, você disse umas coisas sobre a porta Oriental que não me saíram da cabeça.
Vamos subir, tomar um banho e descemos para a missa das seis e meia. Depois da missa, durante o jantar, conversaremos.
Assisti a missa com a cabeça meio distante, esperando a hora do jantar. Mil perguntas passavam pela minha cabeça.
No belo restaurante do hotel, o frei pediu uma sopa, enquanto eu comia uma massa muito gostosa.
Não consigo me acostumar com isso de restaurantes e jantares, Probo. Tantos irmão de rua passando fome...
Meu querido Frei, pense que nem todos os carentes estão na rua. Não tenho como agradecer a sua companhia.
O Frei benzeu-se e rezou brevemente antes da refeição, deixando-me meio sem jeito. Não sabia se eu devia me persignar também, ou se aquilo pareceria falso, mera imitação por vergonha.
Vamos conversar agora, querido. - disse o Frei, enquanto tomava sua sopa. - A Fernanda ligou?
Ligou, Irmão. Ainda está bem azeda. Acho que meu casamento só não acabou desta vez porque o senhor aceitou vir a Jerusalém comigo.
Ela ainda está resmungando por causa da sua viagem?
Está, ela falou alguma coisa sobre uma busca freudiana pela mãe, algo como complexo de édipo mal resolvido, disse que não sabe se vai ter paciência para esperar.
Ela está se sentindo diminuída, Probo, porque você não a trouxe conosco. Eu também não devia ter vindo, acho que me meti no meio de uma crise conjugal.
Não, frei, eu te agradeço demais ter aceitado vir. Eu viria de qualquer jeito, a Fernanda não viria de jeito nenhum. Ela não tem idéia do que é ter perdido a mãe na infância, ainda tem a mãe dela até hoje. Ela está carente e magoada com a minha viagem. Mas eu tinha que vir agora, enquanto tinha tempo e dinheiro, não podia perder esta licença do trabalho. Além disso, tenho de fato contas a acertar com o meu passado, preciso encontrar traços mais nítidos da minha mãe.
E você – disse o Frei, olhando-me nos olhos – tem tratado ela bem no telefone?
Não tanto como deveria – falei, com toda sinceridade, tentando fugir do olhar agudo do Irmão. - Mas não é isto que está me angustiando agora.
E que é que te está angustiando?
Especificamente aquilo que o senhor falou mais cedo, Frei, sobre a necessidade de passar pelo pórtico do Oriente para ser reconhecido como Rei e Messias. Jesus não passou por ali, passou? Como ele poderia ser reconhecido como tal?
Bom, é uma longa história. Mas parece que temos tempo, agora, para longas histórias. Tudo começa com a visão descrita em Ezequiel 44, 1 a 2. Ali, está descrito que este pórtico, que era o pórtico exterior oriental do antigo Templo, deveria ficar fechado. Que não se abriria e que ninguém deveria passar por ele, porque por ele teria entrado o Senhor Deus de Israel. Ali se sentaria o príncipe para comer pão. Por isso, sempre se esperou que o Messias entrasse por aí.
Mas ele não entrou, não é? Jesus nunca passou por este portal.
Não, pelo menos fisicamente. Bom, na verdade, o portal já foi construído e destruído, depois da profecia. O interessante é que um sultão otomano lacrou a porta na idade média, para evitar que o messias judaico entrasse por aí. Além disso, na crença de que o rei judeu não poderia passar por um cemitério sem tornar-se impuro, construíram um cemitério muçulmano em frente à porta, para atrasar ainda mais o messias, quando ele viesse comandar os judeus contra os muçulmanos, dando tempo aos muçulmanos para organizar o seu exército. Mas tudo isso ocorreu muito depois de Cristo, e por isso nos interessa pouco. Voltemos a Cristo.
É verdade, - disse eu, ainda encantado com as histórias do Frei. - voltemos a Cristo. Como ele poderia ser reconhecido como o verdadeiro Messias se ele não cumpriu a profecia de Ezequiel?
Na verdade ele cumpriu. O portão dourado, a porta oriental, para nós, não é uma construção. É uma pessoa.
Ih,- eu disse, meio impaciente. - Lá vem você com suas histórias de monge velho!
Querido, foi você quem perguntou. Quer saber ou não? - disse o Frei, com alguma impaciência.
Desculpe, não quis ser grosseiro. É claro que quero saber.
Vou te dar uma pista, está no Cântico dos Cânticos.
Nem vou tentar. Fala logo...
No ao capítulo 4 do Cântico dos Cânticos, temos a seguinte passagem maravilhosamente bela: “És jardim fechado, Minha irmã, noiva minha, és jardim fechado, uma fonte lacrada”. Quer dizer, Maria é a porta. Assim, se o jardim está fechado, se a fonte está lacrada, se na porta oriental, em que passou a Glória do Senhor, ninguém mais passará, é necessário reconhecer que Maria tem que ter permanecido virgem mesmo após o parto, para que as profecias se cumprissem. Assim, ela seria a porta fechada por onde passou a Glória de Deus. Este é, na verdade, o sentido pleno daquela passagem de Ezequiel.
Mas isso não ocorreu, não é? Mesmo admitindo que Maria tenha concebido virgem, ela não ficou virgem após o parto, ficou? A Bíblia não disse que ela teve outros filhos?
Bom, se você acredita nisso, então terá que admitir comigo que Jesus não era o messias, uma vez que a porta por onde ele passou não ficou fechada. Para que Jesus seja o messias, ele tem que cumprir todas as profecias, esta inclusive. Mas declarar que Maria não é sempre virgem é dizer que a porta oriental, onde passou o Messias, não permaneceu fechada. Então ela não era a porta oriental e, por conseguinte, Jesus não era o Messias.
É muita sutileza, não sei se eu entendo, acho que o vinho me pegou. Vou dormir, Frei, não quer ir também?
Vou já, acho que vou até a capela rezar as completas na frente do sacrário.
Qual o roteiro para amanhã?
Dom Serra vem nos pegar para irmos procurar Obed-Edom.
Quem? - perguntei, meio confuso.
Obed-Edom, o levita a quem Davi confiou a Arca, lembra? Não é possível que você não tenha feito as leituras bíblicas que eu indiquei.
Confesso que não fiz, pelo menos com a atenção que deveria. Mas quem é esse Dom Serra?
É aquele bispo pesquisador que eu te falei, arqueólogo e filólogo, especialista em arqueologia bíblica.
Brasileiro?
Sim, brasileiríssimo, um grande mestre internacional em idioma indo-europeu. Além de uma figura simpaticíssima. Pode ir dormir. Se tiver tempo, leia o primeiro livro de crônicas, capítulo 13, além do mesmo texto em 2 Samuel 6.
Dever de casa?
E atrasado. Deus o abençoe. Boa noite.
Voltamos para o hotel, no meio de Jerusalém. Realmente, Jerusalém é uma cidade linda, como diz o salmo: “Jerusalém, cidade bem edificada, num conjunto harmonioso”. A van circulava por ruas estreitas, cheias de casas de pedras. Realmente não parecia uma cidade que fora destruída e reconstruída 18 vezes, como o Frei me dissera. Ele parecia distante. Aproveitei para contemplar a cidade, seu frenesi. Na verdade, essa viagem tinha começado por iniciativa minha, não do Frei. Eu estava pagando sua passagem e estadia. Mas eu o havia chamado. Na verdade, eu não lhe contara, mas estava realizando uma angústia de muito tempo: estava procurando minha mãe.
Quer dizer, eu sabia muito bem que minha mãe tinha morrido há mais de trinta e cinco anos, e que a minha querida tia Marlene (a quem eu dedicava amor filial) me criara desde então como verdadeiro filho. Mas das poucas coisas que a minha mãe me deixara, a que mais me intrigava era o seu diário. Ela tinha uma fixação com a Arca de Davi, e colecionava referências históricas e bíblicas a esse objeto, que para mim era apenas mítico. Tudo isso, é claro, muito antes que se ouvisse falar em “Indiana Jones” e outras besteiras do gênero. A minha velha mãe, de quem tenho apenas vagas lembranças, nunca saiu da nossa cidade, nem fazia, acredito, o gênero aventureiro. Sua busca não passava de anotações numa velha agenda, basicamente anotações de passagens bíblicas ou de referências bibliográficas.
A noite começava a cair sobre Jerusalém. O aspecto da Cúpula da Rocha era magnífico, seu dourado reluzente sob os pôr do sol. O Frei me havia dito que aquilo era ouro mesmo: que, em Jerusalém, tudo o que parecia ouro era, de fato, ouro. A van se dirigia ao Hotel Notre Dame de Jerusalém, onde estávamos hospedados. Esse hotel, de propriedade católica, erguia-se majestoso na parte antiga da cidade, bem próximo aos antigos muros. Quando nos aproximamos do hotel, o Frei ainda estava retirado nos seus pensamentos, com o livro de orações nas mãos. Agora, depois de conviver com ele mais um pouco, eu já estava mais acostumado com seus hábitos inflexíveis: sempre que acordava, ao meio dia e às seis ele interrompia o que estava fazendo para, puxando seu velho breviário, rezar a liturgia das horas. Também estava me habituando a ir à missa todos os dias com ele, embora esses velhos rituais significassem pouco para mim. Eu queria somente saber um pouco mais sobre a arca, porque queria sabem um pouco mais sobre a minha mãe. Como eu disse, as minhas lembranças não passavam de velhas recordações muito vagas. Na verdade, eu lembrava muito mais claramente da sensação de conforto e proteção que ela me proporcionava na infância do que propriamente de sua imagem. E essas sensações fugidias, essa percepção tranquila de estar protegido, era tudo que me restara da minha mãe, morta tão jovem. Isso e aquela velha agenda com anotações sobre a arca. E foi por isso que eu resolvi vir a Jerusalém, queria saber mais sobre a arca e, conseqüentemente, sobre a minha mãe. Queria que ela significasse mais para mim do que umas fotos velhas e umas sensações meio vagas. E a coisa mais pessoal que ela me deixara fora o seu caderninho.
Quando chegamos no hotel, o Frei fechou seu livro de orações. Descemos da van e ele apontou a imagem de Maria que dominava a fachada do majestoso hotel.
Veja que coisa linda!
É só uma velha estátua, Frei. Nem é muito bem feita.
Não, é uma oração em pedra. Repare na humildade de Maria, veja como ela, de cabeça baixa, eleva o menino Jesus acima de si própria. E veja como o menino abençoa a cidade que o rejeitou.
O menino se ergue, orgulhoso – comentei, só para ter o que dizer.
Orgulhoso? Como assim? Um Deus criança? Um Deus frágil e pobre, criança humilde de cidade pequena, nascida numa caverna? Onde já se viu coisa assim? Não, não há nenhum orgulho, aí. Só a verdadeira majestade dos humildes. Nascido numa caverna, morto numa cruz, ressuscitado num túmulo emprestado. Abençoando a cidade que o rejeitou.
Resolvi ficar calado, por não ter mais o que dizer. Mas o Frei tinha razão. A estátua de fato transparecia o que ele estava dizendo, toda a simplicidade de Maria, cabisbaixa, elevando seu Deus menino para abençoar a cidade inteira. Entramos no belo saguão do hotel.
Frei, você disse umas coisas sobre a porta Oriental que não me saíram da cabeça.
Vamos subir, tomar um banho e descemos para a missa das seis e meia. Depois da missa, durante o jantar, conversaremos.
Assisti a missa com a cabeça meio distante, esperando a hora do jantar. Mil perguntas passavam pela minha cabeça.
No belo restaurante do hotel, o frei pediu uma sopa, enquanto eu comia uma massa muito gostosa.
Não consigo me acostumar com isso de restaurantes e jantares, Probo. Tantos irmão de rua passando fome...
Meu querido Frei, pense que nem todos os carentes estão na rua. Não tenho como agradecer a sua companhia.
O Frei benzeu-se e rezou brevemente antes da refeição, deixando-me meio sem jeito. Não sabia se eu devia me persignar também, ou se aquilo pareceria falso, mera imitação por vergonha.
Vamos conversar agora, querido. - disse o Frei, enquanto tomava sua sopa. - A Fernanda ligou?
Ligou, Irmão. Ainda está bem azeda. Acho que meu casamento só não acabou desta vez porque o senhor aceitou vir a Jerusalém comigo.
Ela ainda está resmungando por causa da sua viagem?
Está, ela falou alguma coisa sobre uma busca freudiana pela mãe, algo como complexo de édipo mal resolvido, disse que não sabe se vai ter paciência para esperar.
Ela está se sentindo diminuída, Probo, porque você não a trouxe conosco. Eu também não devia ter vindo, acho que me meti no meio de uma crise conjugal.
Não, frei, eu te agradeço demais ter aceitado vir. Eu viria de qualquer jeito, a Fernanda não viria de jeito nenhum. Ela não tem idéia do que é ter perdido a mãe na infância, ainda tem a mãe dela até hoje. Ela está carente e magoada com a minha viagem. Mas eu tinha que vir agora, enquanto tinha tempo e dinheiro, não podia perder esta licença do trabalho. Além disso, tenho de fato contas a acertar com o meu passado, preciso encontrar traços mais nítidos da minha mãe.
E você – disse o Frei, olhando-me nos olhos – tem tratado ela bem no telefone?
Não tanto como deveria – falei, com toda sinceridade, tentando fugir do olhar agudo do Irmão. - Mas não é isto que está me angustiando agora.
E que é que te está angustiando?
Especificamente aquilo que o senhor falou mais cedo, Frei, sobre a necessidade de passar pelo pórtico do Oriente para ser reconhecido como Rei e Messias. Jesus não passou por ali, passou? Como ele poderia ser reconhecido como tal?
Bom, é uma longa história. Mas parece que temos tempo, agora, para longas histórias. Tudo começa com a visão descrita em Ezequiel 44, 1 a 2. Ali, está descrito que este pórtico, que era o pórtico exterior oriental do antigo Templo, deveria ficar fechado. Que não se abriria e que ninguém deveria passar por ele, porque por ele teria entrado o Senhor Deus de Israel. Ali se sentaria o príncipe para comer pão. Por isso, sempre se esperou que o Messias entrasse por aí.
Mas ele não entrou, não é? Jesus nunca passou por este portal.
Não, pelo menos fisicamente. Bom, na verdade, o portal já foi construído e destruído, depois da profecia. O interessante é que um sultão otomano lacrou a porta na idade média, para evitar que o messias judaico entrasse por aí. Além disso, na crença de que o rei judeu não poderia passar por um cemitério sem tornar-se impuro, construíram um cemitério muçulmano em frente à porta, para atrasar ainda mais o messias, quando ele viesse comandar os judeus contra os muçulmanos, dando tempo aos muçulmanos para organizar o seu exército. Mas tudo isso ocorreu muito depois de Cristo, e por isso nos interessa pouco. Voltemos a Cristo.
É verdade, - disse eu, ainda encantado com as histórias do Frei. - voltemos a Cristo. Como ele poderia ser reconhecido como o verdadeiro Messias se ele não cumpriu a profecia de Ezequiel?
Na verdade ele cumpriu. O portão dourado, a porta oriental, para nós, não é uma construção. É uma pessoa.
Ih,- eu disse, meio impaciente. - Lá vem você com suas histórias de monge velho!
Querido, foi você quem perguntou. Quer saber ou não? - disse o Frei, com alguma impaciência.
Desculpe, não quis ser grosseiro. É claro que quero saber.
Vou te dar uma pista, está no Cântico dos Cânticos.
Nem vou tentar. Fala logo...
No ao capítulo 4 do Cântico dos Cânticos, temos a seguinte passagem maravilhosamente bela: “És jardim fechado, Minha irmã, noiva minha, és jardim fechado, uma fonte lacrada”. Quer dizer, Maria é a porta. Assim, se o jardim está fechado, se a fonte está lacrada, se na porta oriental, em que passou a Glória do Senhor, ninguém mais passará, é necessário reconhecer que Maria tem que ter permanecido virgem mesmo após o parto, para que as profecias se cumprissem. Assim, ela seria a porta fechada por onde passou a Glória de Deus. Este é, na verdade, o sentido pleno daquela passagem de Ezequiel.
Mas isso não ocorreu, não é? Mesmo admitindo que Maria tenha concebido virgem, ela não ficou virgem após o parto, ficou? A Bíblia não disse que ela teve outros filhos?
Bom, se você acredita nisso, então terá que admitir comigo que Jesus não era o messias, uma vez que a porta por onde ele passou não ficou fechada. Para que Jesus seja o messias, ele tem que cumprir todas as profecias, esta inclusive. Mas declarar que Maria não é sempre virgem é dizer que a porta oriental, onde passou o Messias, não permaneceu fechada. Então ela não era a porta oriental e, por conseguinte, Jesus não era o Messias.
É muita sutileza, não sei se eu entendo, acho que o vinho me pegou. Vou dormir, Frei, não quer ir também?
Vou já, acho que vou até a capela rezar as completas na frente do sacrário.
Qual o roteiro para amanhã?
Dom Serra vem nos pegar para irmos procurar Obed-Edom.
Quem? - perguntei, meio confuso.
Obed-Edom, o levita a quem Davi confiou a Arca, lembra? Não é possível que você não tenha feito as leituras bíblicas que eu indiquei.
Confesso que não fiz, pelo menos com a atenção que deveria. Mas quem é esse Dom Serra?
É aquele bispo pesquisador que eu te falei, arqueólogo e filólogo, especialista em arqueologia bíblica.
Brasileiro?
Sim, brasileiríssimo, um grande mestre internacional em idioma indo-europeu. Além de uma figura simpaticíssima. Pode ir dormir. Se tiver tempo, leia o primeiro livro de crônicas, capítulo 13, além do mesmo texto em 2 Samuel 6.
Dever de casa?
E atrasado. Deus o abençoe. Boa noite.
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Maria virgindade perpétua porta oriental arca
domingo, 4 de abril de 2010
O primeiro capítulo do livro que nunca escrevi
Olhando ontem as minhas coisas, encontrei o primeiro capítulo de um livro que nunca escrevi, um diálogo entre Probo e o Frei Tomás em pleno Getsêmani. Transcrevo aqui para vocês:
I
Eu estava bem cansado. O calor de outubro me atingira. Sentei-me no pequeno pátio da igreja da Agonia, de onde as pessoas saíam lentamente após a missa. Aos pés das oliveiras, onde dizem que Jesus suou sangue, eu contemplei a muralha de Jerusalém.
Talvez essas oliveiras sejam contemporâneas de Jesus, disse Frei Tomás. - Você sabe que as oliveiras não morrem, elas vão rachando e rebrotando internamente, de modo que estas podem muito bem ser as mesmas que assistiram Jesus rezar.
Desculpe, frei Tomás, tudo aqui parece meio falso, não acredito muito em nada por aqui. Duvido que essas muralhas tenham sido as mesmas que Jesus contemplou, tudo aqui já foi construído e reconstruído tantas vezes!
Não é impressionante mesmo assim? Imagine-se aqui, num final de tarde, olhando para essas mulharas imensas e todo o poder que elas encerram, sabendo que em pouco tempo você, sozinho, nu, desarmado e insone, estaria prestes a enfrentar um império religioso e um político, contando apenas consigo mesmo e com a verdade.
E o que é a verdade?
Não sei se você sabe, Probo, mas essa foi pergunta que Pôncio Pilatos fez a Jesus no Pretório, enquanto o interrogava.
E Jesus não respondeu nada, ficou calado.
Fitei, desafiante, o Frei. Lá vinha ele tentando me converter, de novo.
Não estou tentando te converter – ele protestou. Essas coisas aconteceram mesmo, bem aqui.
Frei querido, aconteceram mesmo, mas, salvo engano, Jesus se ferrou direitinho no fim da história.
- De fato – disse o Frei, pacientemente – Jesus ficou calado. Ele sabia que a maioria das pessoas não reconheceria a verdade mesmo que ela fosse uma pessoa em pé na sua frente.
- E você quer dizer que era esse o caso? Para mim, Jesus perdeu uma boa oportunidade de fazer um discurso memorável, de dizer palavras imortais, de usar toda a oratória do grande mestre que se acreditava que ele era. Mas ficou calado.
- Probo, nós tivemos muitos grandes mestres que usaram belas palavras. Jesus falou pouco. Preferiu agir.
Calei-me. De fato, contemplando aquelas muralhas dava pra sentir angústia. Imaginei-me atravessando aqueles muros e desafiando todas as autoridades públicas aos berros, reivindicando a condição de rei e de messias. Acho que hoje eu seria tido por louco. Comentei com Frei Tomás. Ele parou, pensou um pouco e depois me disse:
- Você precisaria passar pela porta Oriental.
Como?
- Para poder reivindicar a condição de rei e messias. Teria que entrar em Jerusalém pela porta Oriental.
Como assim? - perguntei.
- Está reparando aqueles dois arcos ali em frente? Bem no alto, no meio da muralha.
- Aquilo é uma porta? Mas está murada, fechada de pedras!
- Aquela é a porta Dourada, ou porta Formosa, ou porta da Compaixão, ou simplesmente a porta Oriental. A que estamos vendo agora foi construída provavelmente no século VI, por cima das ruínas da original. Ezequiel profetizou sobre essa porta, dizendo que a glória de Deus chegou ao Templo por ela. Ezequiel profetiza que a porta ficará fechada e que ninguém entrará por ela, porque somente o Messias passaria por ela.
- Mas Jesus não passou por ela. Foi por isso que os judeus não o reconheceram?
Na verdade, Probo, ele passou pela Porta Oriental, mas isso implicaria numa discussão muito longa. Não estou disposto a travá-la agora. Acho que você tinha me dito que o propósito da sua vinda aqui era a arca, e não Jesus.
- É verdade. Mas eu gosto de explorar a sua cultura.
- Cultura? Eu sou um pobre frei ignorante... Mas venha, vamos contemplar um pouco a rocha na qual Jesus rezou, naquela noite.
- Frei Tomás, me explique uma coisa, porque é que se discute tanto sobre a palavra “rezar”? Por que é que os protestantes só usam a palavra “orar”?
- Meu querido, vamos deixar essas discussões religiosas de lado.
- Não, eu te peço, me explique!
- Eu não sei, acho que eles associam “rezar” com “rezadeiras”, com magia, com superstições. Acham que “orar” é uma palavra isenta dessa dubiedade, talvez estejam implicitamente nos acusando, a nós católicos, de sermos supersticiosos, sei lá. Eles acham que não devemos nos dirigir a Deus com fórmulas, com “rezas prontas”, porque acham que Jesus proibiu. Acham que quando Jesus disse, no sermão da montanha, para que não usemos “vãs repetições” nas nossas orações, ou quanto ao “palavreado excessivo”, estava nos proibindo, por exemplo, de rezar o terço, no qual as orações são repetidas em fórmulas por diversas vezes.
- E ele estava, não estava? - perguntei, confuso. - Quer dizer, ele estava proibindo essas repetições, como no terço. Por que é, então, que os católicos rezam o terço?
- Na verdade – disse o Frei Tomás, puxando-me pelo braço em direção às velhas oliveiras do Getsêmani – neste mesmo trecho do Evangelho, logo em seguida, Jesus ensina uma fórmula de oração, o “Pai Nosso”. Não me parece, portanto, que ele estivesse proibindo o uso de fórmulas, ao contrário. A verdade, como diz São Paulo, é que nós não sabemos nem rezar como devemos, por isso o Espírito intercede por nós. Assim, quando usamos uma fórmula como o “Pai Nosso”, não devemos pronunciá-la apenas com os lábios, mantendo o coração longe de Deus. Devemos procurar conformar o nosso coração àquilo que está sendo dito. Quanto a repetir a mesma oração, o próprio Jesus fez isso. No relato que o evangelista Marcos fez, sobre o que ocorreu aqui no Getsêmani, isto está muito bem relatado.
- Como assim? - perguntei, mais uma vez admirado com a cultura do Frei.
- Marcos diz, acho que no capítulo 14, lá pelos versículos trinta e tantos, que Jesus prostrou-se para rezar e os discípulos dormiram. Ele os repreendeu, por terem dormido, e voltou para rezar de novo, dizendo as mesmas palavras. E assim ainda uma terceira vez Jesus voltou, acordou os discípulos dorminhocos, foi rezar novamente e repetiu as mesmas palavras, como se estivesse rezando um terço.
- Foi aqui? Foi naquela pedra que fica no meio da Igreja da Agonia, onde estávamos?
- Segundo a tradição, foi ali mesmo. Então você pode ver que Jesus também rezava usando palavras repetidas, é natural que se faça assim, principalmente nos momentos de muita angústia, quando as palavras espontâneas parecem nos faltar aos lábios. Na cruz, ele rezou o salmo 21 - aquele que começa com "meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste", e rezou o salmo 30, dizendo "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito". São fórmulas bíblicas de oração. E se Jesus fez assim, quem somos nós para questioná-lo?
Caminhamos mais um pouco pelo Getsêmani, contemplando o pôr-do-sol. Mas uma coisa não me saía da cabeça. Era a questão da Porta Oriental.
I
Eu estava bem cansado. O calor de outubro me atingira. Sentei-me no pequeno pátio da igreja da Agonia, de onde as pessoas saíam lentamente após a missa. Aos pés das oliveiras, onde dizem que Jesus suou sangue, eu contemplei a muralha de Jerusalém.
Talvez essas oliveiras sejam contemporâneas de Jesus, disse Frei Tomás. - Você sabe que as oliveiras não morrem, elas vão rachando e rebrotando internamente, de modo que estas podem muito bem ser as mesmas que assistiram Jesus rezar.
Desculpe, frei Tomás, tudo aqui parece meio falso, não acredito muito em nada por aqui. Duvido que essas muralhas tenham sido as mesmas que Jesus contemplou, tudo aqui já foi construído e reconstruído tantas vezes!
Não é impressionante mesmo assim? Imagine-se aqui, num final de tarde, olhando para essas mulharas imensas e todo o poder que elas encerram, sabendo que em pouco tempo você, sozinho, nu, desarmado e insone, estaria prestes a enfrentar um império religioso e um político, contando apenas consigo mesmo e com a verdade.
E o que é a verdade?
Não sei se você sabe, Probo, mas essa foi pergunta que Pôncio Pilatos fez a Jesus no Pretório, enquanto o interrogava.
E Jesus não respondeu nada, ficou calado.
Fitei, desafiante, o Frei. Lá vinha ele tentando me converter, de novo.
Não estou tentando te converter – ele protestou. Essas coisas aconteceram mesmo, bem aqui.
Frei querido, aconteceram mesmo, mas, salvo engano, Jesus se ferrou direitinho no fim da história.
- De fato – disse o Frei, pacientemente – Jesus ficou calado. Ele sabia que a maioria das pessoas não reconheceria a verdade mesmo que ela fosse uma pessoa em pé na sua frente.
- E você quer dizer que era esse o caso? Para mim, Jesus perdeu uma boa oportunidade de fazer um discurso memorável, de dizer palavras imortais, de usar toda a oratória do grande mestre que se acreditava que ele era. Mas ficou calado.
- Probo, nós tivemos muitos grandes mestres que usaram belas palavras. Jesus falou pouco. Preferiu agir.
Calei-me. De fato, contemplando aquelas muralhas dava pra sentir angústia. Imaginei-me atravessando aqueles muros e desafiando todas as autoridades públicas aos berros, reivindicando a condição de rei e de messias. Acho que hoje eu seria tido por louco. Comentei com Frei Tomás. Ele parou, pensou um pouco e depois me disse:
- Você precisaria passar pela porta Oriental.
Como?
- Para poder reivindicar a condição de rei e messias. Teria que entrar em Jerusalém pela porta Oriental.
Como assim? - perguntei.
- Está reparando aqueles dois arcos ali em frente? Bem no alto, no meio da muralha.
- Aquilo é uma porta? Mas está murada, fechada de pedras!
- Aquela é a porta Dourada, ou porta Formosa, ou porta da Compaixão, ou simplesmente a porta Oriental. A que estamos vendo agora foi construída provavelmente no século VI, por cima das ruínas da original. Ezequiel profetizou sobre essa porta, dizendo que a glória de Deus chegou ao Templo por ela. Ezequiel profetiza que a porta ficará fechada e que ninguém entrará por ela, porque somente o Messias passaria por ela.
- Mas Jesus não passou por ela. Foi por isso que os judeus não o reconheceram?
Na verdade, Probo, ele passou pela Porta Oriental, mas isso implicaria numa discussão muito longa. Não estou disposto a travá-la agora. Acho que você tinha me dito que o propósito da sua vinda aqui era a arca, e não Jesus.
- É verdade. Mas eu gosto de explorar a sua cultura.
- Cultura? Eu sou um pobre frei ignorante... Mas venha, vamos contemplar um pouco a rocha na qual Jesus rezou, naquela noite.
- Frei Tomás, me explique uma coisa, porque é que se discute tanto sobre a palavra “rezar”? Por que é que os protestantes só usam a palavra “orar”?
- Meu querido, vamos deixar essas discussões religiosas de lado.
- Não, eu te peço, me explique!
- Eu não sei, acho que eles associam “rezar” com “rezadeiras”, com magia, com superstições. Acham que “orar” é uma palavra isenta dessa dubiedade, talvez estejam implicitamente nos acusando, a nós católicos, de sermos supersticiosos, sei lá. Eles acham que não devemos nos dirigir a Deus com fórmulas, com “rezas prontas”, porque acham que Jesus proibiu. Acham que quando Jesus disse, no sermão da montanha, para que não usemos “vãs repetições” nas nossas orações, ou quanto ao “palavreado excessivo”, estava nos proibindo, por exemplo, de rezar o terço, no qual as orações são repetidas em fórmulas por diversas vezes.
- E ele estava, não estava? - perguntei, confuso. - Quer dizer, ele estava proibindo essas repetições, como no terço. Por que é, então, que os católicos rezam o terço?
- Na verdade – disse o Frei Tomás, puxando-me pelo braço em direção às velhas oliveiras do Getsêmani – neste mesmo trecho do Evangelho, logo em seguida, Jesus ensina uma fórmula de oração, o “Pai Nosso”. Não me parece, portanto, que ele estivesse proibindo o uso de fórmulas, ao contrário. A verdade, como diz São Paulo, é que nós não sabemos nem rezar como devemos, por isso o Espírito intercede por nós. Assim, quando usamos uma fórmula como o “Pai Nosso”, não devemos pronunciá-la apenas com os lábios, mantendo o coração longe de Deus. Devemos procurar conformar o nosso coração àquilo que está sendo dito. Quanto a repetir a mesma oração, o próprio Jesus fez isso. No relato que o evangelista Marcos fez, sobre o que ocorreu aqui no Getsêmani, isto está muito bem relatado.
- Como assim? - perguntei, mais uma vez admirado com a cultura do Frei.
- Marcos diz, acho que no capítulo 14, lá pelos versículos trinta e tantos, que Jesus prostrou-se para rezar e os discípulos dormiram. Ele os repreendeu, por terem dormido, e voltou para rezar de novo, dizendo as mesmas palavras. E assim ainda uma terceira vez Jesus voltou, acordou os discípulos dorminhocos, foi rezar novamente e repetiu as mesmas palavras, como se estivesse rezando um terço.
- Foi aqui? Foi naquela pedra que fica no meio da Igreja da Agonia, onde estávamos?
- Segundo a tradição, foi ali mesmo. Então você pode ver que Jesus também rezava usando palavras repetidas, é natural que se faça assim, principalmente nos momentos de muita angústia, quando as palavras espontâneas parecem nos faltar aos lábios. Na cruz, ele rezou o salmo 21 - aquele que começa com "meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste", e rezou o salmo 30, dizendo "Pai, em tuas mãos entrego meu espírito". São fórmulas bíblicas de oração. E se Jesus fez assim, quem somos nós para questioná-lo?
Caminhamos mais um pouco pelo Getsêmani, contemplando o pôr-do-sol. Mas uma coisa não me saía da cabeça. Era a questão da Porta Oriental.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010
Educação, verdade e sentido
No post de ontem, eu mencionei que, para negar o acesso racional a Deus, Kant negou a possibilidade do próprio conhecimento verdadeiro, tal como era entendido nos sistemas filosóficos até então. O problema da aprendizagem não é um problema simples. Partindo de uma antropologia filosófica, poder-se-ia afirmar que aprender nos faz humanos. Animais podem ser adestrados, computadores podem ser programados. Somente pessoas podem aprender.
A questão, portanto, toca profundamente a nossa própria realidade existencial humana. Compartilhamos com os animais a nossa natureza sensível, e, como eles, adquirimos um conhecimento sensível a partir dos estímulos que nos são trazidos pelas coisas. No entanto, somente nós, humanos, ainda segundo a melhor filosofia aristotélico-tomista, temos a capacidade de abstrair, a partir dos dados empíricos, e chegar à aprendizagem intelectual, que distingue os seres dotados de inteligência daqueles que não o são .
Por outro lado, num modelo antropológico de origem kantiana, o conhecimento é a aplicação de “formas” cognitivas “a priori” que realizam a construção de um “objeto” ali onde a inteligência encontra uma “coisa”; ou seja, o que está fora da própria mente é incognoscível. O numenon, ou a coisa em si, seria, para Kant, inatingível para nós; todos os nossos conhecimentos são o resultado da aplicação das formas ou categorias a priori sobre uma realidade incognoscível .
Neste sentido é que os educadores modernos falam da aprendizagem como uma “construção do conhecimento”. Partem de uma noção muitas vezes idealista, kantiana da realidade, em que nada se conhece, portanto nada se ensina e tampouco nada se aprende, sendo a educação uma “construção de conhecimento” feita pelo educando a partir da orientação, a rigor estritamente metodológica, do mestre.
A filosofia aristotélico-tomista não exclui, de modo algum, a participação do sujeito na construção do conhecimento, mas não abre mão da relação entre a aprendizagem, o sujeito e a coisa conhecida, porque não pode abrir mão da verdade – compreendida como “adequação entre o conhecimento e a realidade conhecida”. Essa noção de verdade fica desvalorizada nas atuais correntes pedagógicas de fundo idealista, notadamente de inspiração kantiana. Nestas, a “verdade” é apenas a correção metodológica da “construção” do objeto pelo sujeito, já que a “coisa em si” é incognoscível. Daí sai o receio, na pedagogia moderna, de falar em “erro”. Onde já não se reconhece a verdade senão formal e subjetivamente, o erro também fica diluído.“Kant parte del principio de que el “objeto” conocido, si es universal y necessario, há sido “construido” por el sujeto, es obra suya. Pero no enteramente, pues em esse caso mas que conocer sólo pensaríamos. Para conocer hace falta, por un lado, “ricibir” unos datos, y por otro “dotarlos” de unas determinadas caracteristicas que los conviertan em objetos de conocimiento. Eso que el sujeto aporta es lo que él llama transcendental, y le da esse nombre porque no puede faltar nunca, porque está mas allá de cada objeto concreto, pos si faltara tampoco habría objeto alguno.” (Gonzales, Rafale Corazón, Kant y la Ilustración, pág. 105. Madrid, Editora Rialp, 2004).
Num trecho do seu livro "Hereges", Chesterton põe uma questão bastante interessante: o desenvolvimento de técnicas e da ciência da aprendizagem, no mundo contemporâneo, foi seguido pela ideia de que nada se pode ensinar e aprender de verdade, de que cada um deve construir seu próprio conhecimento e de que não há nem uma verdade , nem um sentido reconhecível, na educação. Ele diz:
"Cada um dos modernos ideais e frases populares é uma desculpa para se esquivar do problema do que é bom. Gostamos de falar de “liberdade”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar do “progresso”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar de “educação”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. O homem moderno diz: “Deixemos todos esses padrões arbitrários e abracemos a liberdade.” Isso, se logicamente compreendido, significa: “Não decidamos o que é bom, mas decidamos que é bom não decidir.” Ele diz: “Fora com nossa antiga fórmula moral; sou pelo progresso.” Isso, logicamente compreendido, significa: “Não estabeleçamos se uma coisa é boa; mas estabeleçamos se vamos ganhar mais com ela.” Ele diz: “Não é nem na religião nem na moral, meu amigo, que reside a esperança da raça, mas na educação.” Isso, claramente expresso, significa: “Não podemos decidir o que é bom, mas vamos dá-lo a nossos filhos.”
O abandono da noção de verdade, em nome de uma falsa liberdade, de uma falsa tolerância, levou-nos ao paradoxo que ele aponta: já não podemos discernir o que é o bem, o que é a verdade, mas queremos dá-los aos nossos filhos. O mero desenvolvimento de técnicas psicológicas de aprendizagem nos levará, assim, a um mundo em que saberemos, cada vez mais, como se aprende, mas não saberemos o que se deve aprender.
Hoje vemos a psicologia retomar a ideia de "sentido" como necessária à própria vida humana. “A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma “racionalização secundária” de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido apenas por aquela determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que satisfará a sua própria vontade de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e valores não são mais do que mecanismos de defesa, formações reativas e sublimações. Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função dos meus “mecanismos de defesa”. Nem tampouco estaria disposto a morrer simplesmente por amor às minhas “formações reativas”. O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores.” ( Frankl, Victor, Em Busca de Sentido. Petrópolis, Ed. Vozes, 1991. Pág.92).
Por outro lado, quando falo de verdade, não falo da simples adequação entre o conhecimento e o conhecido, como se define na psicologia do conhecimento aristotélico-tomista, mas da verdade existencial, aquela cuja busca honesta transforma a vida. “A verdade como retidão do agir e da palavra humana tem o nome de veracidade, sinceridade ou franqueza. A verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia.” (CEC, § 2468).
Num mundo em que a cultura relativista é auto-implodida pelos próprios culturólogos, nada tem valor suficiente para ser entregue ao educando. Como notou Werner Jaeger, “Hoje estamos habituados a usar a palavra “cultura” não no sentido de um ideal próprio da humanidade herdeira da Grécia, mas antes numa acepção bem mais comum, que a estende a todos os povos da terra, incluídos os mais primitivos. Entendemos assim por cultura a totalidade das manifestações e formas de vida que caracterizam um povo. A palavra converteu-se num simples conceito antropológico descritivo. Já não significa um alto conceito de valor, um ideal consciente”. (Jaeger, Werner, Paideia, a Formação do Homem Grego. São Paulo, Martins Fontes, 1986, pág. 7). Este relativismo transformou a educação numa técnica, ou a serviço da transformação do homem num tecnólogo, ou a serviço de uma ideia de revolução permanente que não pode levar a nenhum lugar senão ao nada – revolucionar não é um verbo intransitivo, como parecem acreditar os pós-gramscianos.
Sem o resgate dos valores do bem, do verdadeiro e do belo, sem o resgate da verdadeira paideia cristã, estamos construindo uma educação que limita-se à construção de técnicos e tecnocratas, ou, pior ainda, de iconoclastas que encontrarão, para destruir, apenas uma sociedade já em ruínas.
A questão, portanto, toca profundamente a nossa própria realidade existencial humana. Compartilhamos com os animais a nossa natureza sensível, e, como eles, adquirimos um conhecimento sensível a partir dos estímulos que nos são trazidos pelas coisas. No entanto, somente nós, humanos, ainda segundo a melhor filosofia aristotélico-tomista, temos a capacidade de abstrair, a partir dos dados empíricos, e chegar à aprendizagem intelectual, que distingue os seres dotados de inteligência daqueles que não o são .
Por outro lado, num modelo antropológico de origem kantiana, o conhecimento é a aplicação de “formas” cognitivas “a priori” que realizam a construção de um “objeto” ali onde a inteligência encontra uma “coisa”; ou seja, o que está fora da própria mente é incognoscível. O numenon, ou a coisa em si, seria, para Kant, inatingível para nós; todos os nossos conhecimentos são o resultado da aplicação das formas ou categorias a priori sobre uma realidade incognoscível .
Neste sentido é que os educadores modernos falam da aprendizagem como uma “construção do conhecimento”. Partem de uma noção muitas vezes idealista, kantiana da realidade, em que nada se conhece, portanto nada se ensina e tampouco nada se aprende, sendo a educação uma “construção de conhecimento” feita pelo educando a partir da orientação, a rigor estritamente metodológica, do mestre.
A filosofia aristotélico-tomista não exclui, de modo algum, a participação do sujeito na construção do conhecimento, mas não abre mão da relação entre a aprendizagem, o sujeito e a coisa conhecida, porque não pode abrir mão da verdade – compreendida como “adequação entre o conhecimento e a realidade conhecida”. Essa noção de verdade fica desvalorizada nas atuais correntes pedagógicas de fundo idealista, notadamente de inspiração kantiana. Nestas, a “verdade” é apenas a correção metodológica da “construção” do objeto pelo sujeito, já que a “coisa em si” é incognoscível. Daí sai o receio, na pedagogia moderna, de falar em “erro”. Onde já não se reconhece a verdade senão formal e subjetivamente, o erro também fica diluído.“Kant parte del principio de que el “objeto” conocido, si es universal y necessario, há sido “construido” por el sujeto, es obra suya. Pero no enteramente, pues em esse caso mas que conocer sólo pensaríamos. Para conocer hace falta, por un lado, “ricibir” unos datos, y por otro “dotarlos” de unas determinadas caracteristicas que los conviertan em objetos de conocimiento. Eso que el sujeto aporta es lo que él llama transcendental, y le da esse nombre porque no puede faltar nunca, porque está mas allá de cada objeto concreto, pos si faltara tampoco habría objeto alguno.” (Gonzales, Rafale Corazón, Kant y la Ilustración, pág. 105. Madrid, Editora Rialp, 2004).
Num trecho do seu livro "Hereges", Chesterton põe uma questão bastante interessante: o desenvolvimento de técnicas e da ciência da aprendizagem, no mundo contemporâneo, foi seguido pela ideia de que nada se pode ensinar e aprender de verdade, de que cada um deve construir seu próprio conhecimento e de que não há nem uma verdade , nem um sentido reconhecível, na educação. Ele diz:
"Cada um dos modernos ideais e frases populares é uma desculpa para se esquivar do problema do que é bom. Gostamos de falar de “liberdade”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar do “progresso”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. Gostamos de falar de “educação”; isto é uma desculpa para se evitar discutir o que é bom. O homem moderno diz: “Deixemos todos esses padrões arbitrários e abracemos a liberdade.” Isso, se logicamente compreendido, significa: “Não decidamos o que é bom, mas decidamos que é bom não decidir.” Ele diz: “Fora com nossa antiga fórmula moral; sou pelo progresso.” Isso, logicamente compreendido, significa: “Não estabeleçamos se uma coisa é boa; mas estabeleçamos se vamos ganhar mais com ela.” Ele diz: “Não é nem na religião nem na moral, meu amigo, que reside a esperança da raça, mas na educação.” Isso, claramente expresso, significa: “Não podemos decidir o que é bom, mas vamos dá-lo a nossos filhos.”
O abandono da noção de verdade, em nome de uma falsa liberdade, de uma falsa tolerância, levou-nos ao paradoxo que ele aponta: já não podemos discernir o que é o bem, o que é a verdade, mas queremos dá-los aos nossos filhos. O mero desenvolvimento de técnicas psicológicas de aprendizagem nos levará, assim, a um mundo em que saberemos, cada vez mais, como se aprende, mas não saberemos o que se deve aprender.
Hoje vemos a psicologia retomar a ideia de "sentido" como necessária à própria vida humana. “A busca do indivíduo por um sentido é a motivação primária em sua vida, e não uma “racionalização secundária” de impulsos instintivos. Esse sentido é exclusivo e específico, uma vez que precisa e pode ser cumprido apenas por aquela determinada pessoa. Somente então esse sentido assume uma importância que satisfará a sua própria vontade de sentido. Alguns autores sustentam que sentidos e valores não são mais do que mecanismos de defesa, formações reativas e sublimações. Mas, pelo que toca a mim, eu não estaria disposto a viver em função dos meus “mecanismos de defesa”. Nem tampouco estaria disposto a morrer simplesmente por amor às minhas “formações reativas”. O que acontece, porém, é que o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores.” ( Frankl, Victor, Em Busca de Sentido. Petrópolis, Ed. Vozes, 1991. Pág.92).
Por outro lado, quando falo de verdade, não falo da simples adequação entre o conhecimento e o conhecido, como se define na psicologia do conhecimento aristotélico-tomista, mas da verdade existencial, aquela cuja busca honesta transforma a vida. “A verdade como retidão do agir e da palavra humana tem o nome de veracidade, sinceridade ou franqueza. A verdade ou veracidade é a virtude que consiste em mostrar-se verdadeiro no agir e no falar, guardando-se da duplicidade, da simulação e da hipocrisia.” (CEC, § 2468).
Num mundo em que a cultura relativista é auto-implodida pelos próprios culturólogos, nada tem valor suficiente para ser entregue ao educando. Como notou Werner Jaeger, “Hoje estamos habituados a usar a palavra “cultura” não no sentido de um ideal próprio da humanidade herdeira da Grécia, mas antes numa acepção bem mais comum, que a estende a todos os povos da terra, incluídos os mais primitivos. Entendemos assim por cultura a totalidade das manifestações e formas de vida que caracterizam um povo. A palavra converteu-se num simples conceito antropológico descritivo. Já não significa um alto conceito de valor, um ideal consciente”. (Jaeger, Werner, Paideia, a Formação do Homem Grego. São Paulo, Martins Fontes, 1986, pág. 7). Este relativismo transformou a educação numa técnica, ou a serviço da transformação do homem num tecnólogo, ou a serviço de uma ideia de revolução permanente que não pode levar a nenhum lugar senão ao nada – revolucionar não é um verbo intransitivo, como parecem acreditar os pós-gramscianos.
Sem o resgate dos valores do bem, do verdadeiro e do belo, sem o resgate da verdadeira paideia cristã, estamos construindo uma educação que limita-se à construção de técnicos e tecnocratas, ou, pior ainda, de iconoclastas que encontrarão, para destruir, apenas uma sociedade já em ruínas.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Seria possível construir uma "fraternidade" sem Pai?
Eu não acredito que aqueles pensadores, principalmente juristas, que hoje estudam e escrevem seriamente em ataque à religião, ou (mais especificamente) ao monoteísmo, ou, ainda mais fortemente, ao cristianismo, ou mais especificamente à Igreja Católica Apostólica Romana ajam assim por má-fé, por desonestidade intelectual ou por arrogância. Creio que há dois fatores que levam tais intelectuais, tão preparados, cultos, inteligentes e raciocinando tão clara e logicamente, a atacar a fé, o monoteísmo, o cristianismo e a Igreja: uma sincera defesa de uma sociedade mais livre, tolerante e pacífica, por um lado, e a tendência natural de justificar intelectualmente a escolha de um bem aparente em prejuízo de um bem real.
Com relação a este conflito entre o bem aparente e o bem real, remeto a um texto existente aqui no blog, colocado em fevereiro deste ano, chamado “a liberdade, a tentação, o bem e o mal”. Eu acrescentaria apenas que quando o coração humano escolhe um bem aparente, ao invés de um bem real, tende a justificar a sua escolha, quer defendendo o bem aparente que escolheu como o mais elevado naquela circunstância, quer atacando o bem real para rebaixá-lo a um nível inferior ao do bem aparente escolhido, quer negando que se possa sequer falar na existência de um bem real. Assim, quem acha que parte da liberdade consiste, por exemplo, em obter o máximo de prazer sexual que quiser, ou entesourar o máximo de dinheiro que quiser, ou dominar o outro como quiser, tenderá a elencar estes três valores como elegíveis num universo em que não se poderia apontar nenhum valor ou bem como mais elevado do que eles, pela inexistência de um referencial que permitisse discernir, entre os bens, aquele mais elevado.
Assim, a pretensão católica à verdade parece intolerável e intolerante. Intolerável porque, se admitida, permite que o homem possa distinguir entre bens mais importantes e bens menos importantes, levando à presumível redução da liberdade de escolha indiferente entre os vários bens colocados à disposição do homem, ou mesmo entre o bem e o mal. Intolerante porque, uma vez de posse dessa régua, o ser humano tenderia a impor seu próprio compasso moral aos outros, o que leva às guerras, à perseguição e ao fanatismo.
Incomoda aos filósofos e pensadores autodeclarados ateus o fato de que “a religião católica proclama a verdade – inclusive a verdade 'racional' de sua fé. A ponto de, de fato, fora da 'verdade revelada', a pessoa ficar 'definitivamente fora da verdade pura e simples'.” (É a queixa de Paolo Flores D'Arcais no livro “Deus Existe?”, em que ele debate com o então Cardeal Ratzinger sobre a Igreja). D'Arcais queixa-se que a filosofia da modernidade já elaborou as objeções irrespondíveis a essa pretensão, através, por exemplo, de Hume, Freud ou, principalmente Kant, e a Igreja, não as tendo conseguido refutar, persiste teimosamente proclamando uma “verdade” pretensamente racional que a razão não a permite proclamar. Assim, a defesa da verdade revelada como racional seria fanática, e a revelação somente seria admissível, para a filosofia moderna, como “loucura”, na forma defendida por São Paulo na Carta aos Romanos, nunca como razoável ou racional. Vale dizer, somente a fé protestante, que empurrou de fato a revelação para o campo do irracional, do emocional, seria admissível para a modernidade iluminada.
Ocorre que a refutação de Kant às “vias” tomistas comprobatórias da existência de Deus foi feita por diversos autores. Recomendo, pessoalmente, Leonel Franca (seu excelente texto “Nas Origens do Agnosticismo Contemporâneo” está disponível na Internet), que mostra que, junto com a refutação das “vias” de prova da existência de Deus, Kant jogou fora a própria razão, aprisionando a inteligência humana num mundo de aparências autoprojetado. Minha mãe diria que Kant jogou o menino fora, junto com a água do banho. Para negar o acesso racional a Deus, Kant negou o acesso racional a qualquer realidade extramental. O preço foi muito alto...
Por outro lado, o próprio Hegel, idealista como é, desancou aquela história de Kant a respeito das “cem moedas imaginárias”. Eu lembrarei rapidinho: Kant dizia que a “via” ontológica de provar a existência de Deus – aquela de Santo Anselmo, que assegura que sendo Deus um ser perfeitíssimo, a existência deve estar necessariamente contida em si, porque um ser perfeito que existe é necessariamente mais perfeito do que um ser perfeito que não existe, seria furada. Para Kant, a existência não acrescenta perfeição ao ser. Cem moedas imaginárias, para ele, teriam o mesmo valor de cem moedas reais. Hegel já havia classificado esse raciocínio kantiano de “tosco”, no § 51 da Enciclopédia, proclamando que, no Absoluto, existência e conceito não podem ser pensados de forma excludente. Para o absoluto, existência e conceito identificam-se. Parece que o sr. Paolo Flores d'Arcais precisa ler melhor seus filósofos idealistas.
Mas voltemos aos pensadores ateus contemporâneos, e a sua convicção de que o seu niilismo – a rejeição de qualquer ideia de uma fonte última de verdade transcendente ao mundo, para além das diversas verdades objetivas que se pode reconhecer no próprio mundo, e da ideia de que essa verdade transcendente governa a realidade e estabelece o bem, o verdadeiro e o belo para todos nós aqui na imanência. Para eles – pelo menos até onde eu entendi – tal niilismo seria a condição intelectual mais pacífica e pluralística, exatamente por não assumir nenhum sistema de crenças que determine que há um único caminho correto a ser trilhado, que deveria ser imposto, portanto, mesmo a quem não creia nele. Assim, ser ateu seria livrar-se da subserviência a credos, à fantasia religiosa, ou a qualquer forma de absolutismo cultural ou moral, e estar liberado de qualquer desejo de controlar o semelhante.
O ateísmo seria, portanto, o sistema racional do futuro. Não se trata, portanto, de não acreditar em nada, mas de não considerar nenhuma crença como importante o suficiente para excluir nenhuma outra. Por isso, o primeiro alvo, para esses pensadores, é qualquer sistema de crenças que se declare como verdadeiro.
Assim, não existiria uma “busca pela verdade”, porque uma verdade última a ser buscada simplesmente não existe. Apenas “verdades” que conviveriam em paz, desde que nenhuma se proclame como transcendente ou superior às outras.
A questão que se impõe é: se o pacifismo e o pluralismo são o fundamento para a rejeição de qualquer busca a uma verdade transcendente, como estabelecer, num sistema assim, que o “pacifismo” e o “pluralismo” são valores a serem perseguidos prioritariamente? Uma vez derrubada a ideia de que há valores imponíveis por si mesmos, em razão de uma verdade transcendente, todos os valores ficam relativizados – incluídos, aí, o pacifismo e o pluralismo. Vale dizer, numa sociedade sem valores transcendentes, ninguém pode garantir, tampouco, o pacifismo e o pluralismo.
Neste ponto, acho que Nietszche era o mais honesto e coerente dos niilistas. Ele declarou expressamente as razões pelas quais não gostava do cristianismo: exatamente porque o seu discurso de “caridade” e “compaixão” impediam o sofrimento do homem mais forte – aquele sem clemência com o que ele via como fraqueza – uma sociedade pluralista, respeitosa com o mais fraco, tolerante com o diferente, e que ele apontava como amolecimento decorrente do cristianismo. Eliminado o cristianismo, para Nietszche, estaria aberto o caminho para o super-homem, aquele movido pela “vontade de poder”, que eliminaria o fraco e abriria caminho para um mundo da força, do poder e da majestade do homem autossuficiente. Coerente, esse tal Nietszche. De fato, alguns anos depois, houve a tentativa de se eliminar esses valores cristãos da sociedade e fazer surgir à força o tal super-homem, e a humanidade conheceu suas duas guerras mais sangrentas.
Mas, com o ateísmo “liberal” contemporâneo, ocorre algo diferente. Eles querem retirar a escada na qual a tolerância, a fraternidade e o pluralismo se sustentam – a existência de valores transcendentes estabelecidos na Verdade última sobre o homem e sobre Deus – e querem, a um só tempo, permanecer com tais valores, vale dizer, construir uma sociedade de irmãos matando, a um só tempo, o Pai. Não há irmãos sem um Pai comum. E se a única fraternidade possível, numa sociedade assim, é a fraternidade dos que se unem para matar o próprio Pai, então o resultado é previsível. Começamos matando o Pai, em seguida abortamos os nossos filhos, repudiamos as nossas esposas para “casar” com os próprios “irmãos” e, por fim, nos destruímos, porque nenhuma espécie sobrevive destruindo a prole e estabelecendo relações afetivas essencialmente estéreis. Pessoalmente, opto por Deus.
Com relação a este conflito entre o bem aparente e o bem real, remeto a um texto existente aqui no blog, colocado em fevereiro deste ano, chamado “a liberdade, a tentação, o bem e o mal”. Eu acrescentaria apenas que quando o coração humano escolhe um bem aparente, ao invés de um bem real, tende a justificar a sua escolha, quer defendendo o bem aparente que escolheu como o mais elevado naquela circunstância, quer atacando o bem real para rebaixá-lo a um nível inferior ao do bem aparente escolhido, quer negando que se possa sequer falar na existência de um bem real. Assim, quem acha que parte da liberdade consiste, por exemplo, em obter o máximo de prazer sexual que quiser, ou entesourar o máximo de dinheiro que quiser, ou dominar o outro como quiser, tenderá a elencar estes três valores como elegíveis num universo em que não se poderia apontar nenhum valor ou bem como mais elevado do que eles, pela inexistência de um referencial que permitisse discernir, entre os bens, aquele mais elevado.
Assim, a pretensão católica à verdade parece intolerável e intolerante. Intolerável porque, se admitida, permite que o homem possa distinguir entre bens mais importantes e bens menos importantes, levando à presumível redução da liberdade de escolha indiferente entre os vários bens colocados à disposição do homem, ou mesmo entre o bem e o mal. Intolerante porque, uma vez de posse dessa régua, o ser humano tenderia a impor seu próprio compasso moral aos outros, o que leva às guerras, à perseguição e ao fanatismo.
Incomoda aos filósofos e pensadores autodeclarados ateus o fato de que “a religião católica proclama a verdade – inclusive a verdade 'racional' de sua fé. A ponto de, de fato, fora da 'verdade revelada', a pessoa ficar 'definitivamente fora da verdade pura e simples'.” (É a queixa de Paolo Flores D'Arcais no livro “Deus Existe?”, em que ele debate com o então Cardeal Ratzinger sobre a Igreja). D'Arcais queixa-se que a filosofia da modernidade já elaborou as objeções irrespondíveis a essa pretensão, através, por exemplo, de Hume, Freud ou, principalmente Kant, e a Igreja, não as tendo conseguido refutar, persiste teimosamente proclamando uma “verdade” pretensamente racional que a razão não a permite proclamar. Assim, a defesa da verdade revelada como racional seria fanática, e a revelação somente seria admissível, para a filosofia moderna, como “loucura”, na forma defendida por São Paulo na Carta aos Romanos, nunca como razoável ou racional. Vale dizer, somente a fé protestante, que empurrou de fato a revelação para o campo do irracional, do emocional, seria admissível para a modernidade iluminada.
Ocorre que a refutação de Kant às “vias” tomistas comprobatórias da existência de Deus foi feita por diversos autores. Recomendo, pessoalmente, Leonel Franca (seu excelente texto “Nas Origens do Agnosticismo Contemporâneo” está disponível na Internet), que mostra que, junto com a refutação das “vias” de prova da existência de Deus, Kant jogou fora a própria razão, aprisionando a inteligência humana num mundo de aparências autoprojetado. Minha mãe diria que Kant jogou o menino fora, junto com a água do banho. Para negar o acesso racional a Deus, Kant negou o acesso racional a qualquer realidade extramental. O preço foi muito alto...
Por outro lado, o próprio Hegel, idealista como é, desancou aquela história de Kant a respeito das “cem moedas imaginárias”. Eu lembrarei rapidinho: Kant dizia que a “via” ontológica de provar a existência de Deus – aquela de Santo Anselmo, que assegura que sendo Deus um ser perfeitíssimo, a existência deve estar necessariamente contida em si, porque um ser perfeito que existe é necessariamente mais perfeito do que um ser perfeito que não existe, seria furada. Para Kant, a existência não acrescenta perfeição ao ser. Cem moedas imaginárias, para ele, teriam o mesmo valor de cem moedas reais. Hegel já havia classificado esse raciocínio kantiano de “tosco”, no § 51 da Enciclopédia, proclamando que, no Absoluto, existência e conceito não podem ser pensados de forma excludente. Para o absoluto, existência e conceito identificam-se. Parece que o sr. Paolo Flores d'Arcais precisa ler melhor seus filósofos idealistas.
Mas voltemos aos pensadores ateus contemporâneos, e a sua convicção de que o seu niilismo – a rejeição de qualquer ideia de uma fonte última de verdade transcendente ao mundo, para além das diversas verdades objetivas que se pode reconhecer no próprio mundo, e da ideia de que essa verdade transcendente governa a realidade e estabelece o bem, o verdadeiro e o belo para todos nós aqui na imanência. Para eles – pelo menos até onde eu entendi – tal niilismo seria a condição intelectual mais pacífica e pluralística, exatamente por não assumir nenhum sistema de crenças que determine que há um único caminho correto a ser trilhado, que deveria ser imposto, portanto, mesmo a quem não creia nele. Assim, ser ateu seria livrar-se da subserviência a credos, à fantasia religiosa, ou a qualquer forma de absolutismo cultural ou moral, e estar liberado de qualquer desejo de controlar o semelhante.
O ateísmo seria, portanto, o sistema racional do futuro. Não se trata, portanto, de não acreditar em nada, mas de não considerar nenhuma crença como importante o suficiente para excluir nenhuma outra. Por isso, o primeiro alvo, para esses pensadores, é qualquer sistema de crenças que se declare como verdadeiro.
Assim, não existiria uma “busca pela verdade”, porque uma verdade última a ser buscada simplesmente não existe. Apenas “verdades” que conviveriam em paz, desde que nenhuma se proclame como transcendente ou superior às outras.
A questão que se impõe é: se o pacifismo e o pluralismo são o fundamento para a rejeição de qualquer busca a uma verdade transcendente, como estabelecer, num sistema assim, que o “pacifismo” e o “pluralismo” são valores a serem perseguidos prioritariamente? Uma vez derrubada a ideia de que há valores imponíveis por si mesmos, em razão de uma verdade transcendente, todos os valores ficam relativizados – incluídos, aí, o pacifismo e o pluralismo. Vale dizer, numa sociedade sem valores transcendentes, ninguém pode garantir, tampouco, o pacifismo e o pluralismo.
Neste ponto, acho que Nietszche era o mais honesto e coerente dos niilistas. Ele declarou expressamente as razões pelas quais não gostava do cristianismo: exatamente porque o seu discurso de “caridade” e “compaixão” impediam o sofrimento do homem mais forte – aquele sem clemência com o que ele via como fraqueza – uma sociedade pluralista, respeitosa com o mais fraco, tolerante com o diferente, e que ele apontava como amolecimento decorrente do cristianismo. Eliminado o cristianismo, para Nietszche, estaria aberto o caminho para o super-homem, aquele movido pela “vontade de poder”, que eliminaria o fraco e abriria caminho para um mundo da força, do poder e da majestade do homem autossuficiente. Coerente, esse tal Nietszche. De fato, alguns anos depois, houve a tentativa de se eliminar esses valores cristãos da sociedade e fazer surgir à força o tal super-homem, e a humanidade conheceu suas duas guerras mais sangrentas.
Mas, com o ateísmo “liberal” contemporâneo, ocorre algo diferente. Eles querem retirar a escada na qual a tolerância, a fraternidade e o pluralismo se sustentam – a existência de valores transcendentes estabelecidos na Verdade última sobre o homem e sobre Deus – e querem, a um só tempo, permanecer com tais valores, vale dizer, construir uma sociedade de irmãos matando, a um só tempo, o Pai. Não há irmãos sem um Pai comum. E se a única fraternidade possível, numa sociedade assim, é a fraternidade dos que se unem para matar o próprio Pai, então o resultado é previsível. Começamos matando o Pai, em seguida abortamos os nossos filhos, repudiamos as nossas esposas para “casar” com os próprios “irmãos” e, por fim, nos destruímos, porque nenhuma espécie sobrevive destruindo a prole e estabelecendo relações afetivas essencialmente estéreis. Pessoalmente, opto por Deus.
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