Eu estava assistindo, estes dias, o canal fechado History, que tem uns programas interessantes. Ali, vi uma vinheta com o historiador Eduardo Bueno, em que ele conta algum “caso” escabroso do nosso passado, envolvendo algum homem público da nossa história e seus erros, e termina dizendo: “o povo que não conhece o seu passado fica condenado a cometer sempre os mesmos erros”.
Este é, sem dúvida, um chavão que contém verdade, mas também que mistifica. Se a nossa história consiste apenas numa série de erros a serem evitados no futuro, não há razão para estarmos juntos, ou para formarmos uma comunidade. Não há raízes para o nosso presente.
Não estou defendendo aqui uma visão ufanista da história, mas uma visão justa. Há erros no nosso passado, e precisamos evitar a sua repetição. Mas também há acertos que precisam ser cultivados. Não podemos ser um povo que recomeça tudo a cada momento, eis o maior erro que nunca aprenderemos a evitar.
O passado é a história da luta pela liberdade das gerações anteriores. Elas erraram muito – como hoje erramos nós. Mas não há porque imaginar que elas deliberaram dolosamente destruir a sua própria liberdade tomando sempre decisões imbecis, corruptas ou deliberadamente destrutivas. Elas buscavam construir sua própria felicidade, e o fato de que hoje estejamos lutando para construir a nossa é sinal de que nem todas as decisões que eles tomaram foram equivocadas. Não repetiremos os erros do passado aviltando a sua memória, mas respeitando as suas limitações. Não construiremos um futuro melhor promovendo o aviltamento dos nossos antecessores, mas descobrindo o valor do seu legado. Não há nenhuma evidência de que estejamos tomando, agora,decisões melhores, ou construindo um mundo irrevogavelmente melhor para os nossos descendentes do que eles construíram. Lembro de uma passagem muito bela da Encíclica “Spe Savi”, de Bento XVI, em que ele alerta:
“Visto que o homem permanece sempre livre e dado que a sua liberdade é também sempre frágil, não existirá jamais neste mundo o reino do bem definitivamente consolidado. Quem prometesse o mundo melhor que duraria irrevocavelmente para sempre, faria uma promessa falsa; ignora a liberdade humana. A liberdade deve ser incessantemente conquistada para o bem. A livre adesão ao bem nunca acontece simplesmente por si mesma. Se houvesse estruturas que fixassem de modo irrevogável uma determinada – boa – condição do mundo, ficaria negada a liberdade do homem e, por este motivo, não seriam de modo algum, em definitivo, boas estruturas.”
Quanto ao justo valor a ser dado à busca feita por nossos antepassados, à busca honesta pela herança que eles nos deixaram com suas boas e más decisões, cabe-nos abaixar a postura da arrogância contemporânea e julgá-los com justiça. Como diz Bento XVI, ainda na encíclica citada, “a busca sempre nova e trabalhosa de retos ordenamentos para as realidades humanas é tarefa de cada geração: nunca é uma tarefa que se possa simplesmente dar por concluída. Mas, cada geração deve dar a própria contribuição para estabelecer razoáveis ordenamentos de liberdade e de bem, que ajudem a geração seguinte na sua orientação para o reto uso da liberdade humana, dando assim – sempre dentro dos limites humanos – uma certa garantia para o futuro também.”
Não somos melhores que nossos pais. Mas eles são, afinal, os nossos pais. Queremos conhecer os seus erros, para que não os cometamos, mas também queremos conhecer os seus acertos, para que os herdemos. Como diz Jesus (Lc 11, 47-54):
“Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas! No entanto, foram vossos pais que os mataram. Com isso, sois testemunhas e aprovais as ações de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos.”
Não podemos continuar, na nossa historiografia, a nos declarar apenas filhos dos matadores de profetas, para construir os túmulos dos profetas que nossos pais mataram. Queremos ser também filhos dos profetas. Queremos a nossa herança, e queremos que os historiadores nos ajudem a transmiti-las aos nossos filhos.
Leituras, opiniões e ideias de um católico. Contatos no email paulovjacobina@gmail.com
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Os quadrinhos puros do direito - alguns pensamentos
Um colega, professor de direito e inteligentíssimo, enviou-se um link para uma "história em quadrinhos", na qual se apresenta, de maneira lúdica, aquilo que o autor acredita ser a doutrina de Hans Kelsen, o positivismo jurídico.O autor é Luíz Alberto Warat
O link para os quadrinhos é http://ruadosbragas223.blogspot.com/2009/03/kelsen-os-quadrinhos-puros-do-direito.html
Li os tais quadrinhos e fiz as seguintes observações para o meu amigo:
1. A primeira folha, que inicia com “existia uma grande confusão entre os juristas dogmáticos” é muito engraçada, e mostra uma visão em pastiche do pensamento de Kelsen sobre a realidade que lhe precedeu, além de apontar os nossos próprios preconceitos pós-contemporâneos como “pelo menos isso era o que pensava Kelsen”.
2. Para começar, não havia nenhuma “confusão entre os juristas dogmáticos”, nem Kelsen pensava isto. Os juristas sabiam exatamente de onde partiam e onde chegavam. Seria uma imbecilidade de Kelsen não reconhecer a solidez do pensamento kantiano, ou mesmo do pensamento hegeliano, sobre o direito, e colocar tudo numa "geleia geral". Quem escreveu isso nunca leu, por exemplo, Agostinho ou Tomás de Aquino, que, embora profundamente religiosos, sempre souberam exatamente a diferença entre Revelação, direito natural e direito positivo. Eu iria mais longe: todo pensamento jurídico de alto nível, mesmo antes de Kelsen, sempre esteve perfeitamente consciente de seus próprios pressupostos e de suas próprias consequências, bem como dos limites daquilo que chamava de “jurídico” e do que chamava de “moral” e de “religião”. Apenas, por não partir de uma asséptica “norma hipotética gnoseológica imaginária”, chegavam a conclusões diferentes do que o próprio Kelsen chegou.
3. Aponto mais duas pasteurizações: segundo tais quadrinhos, “Kelsen pensava que os juízes se sentiam imaculados e acreditavam que não matavam a justiça aplicando a lei como revelação divina”. Ora, eu diria: a) ser imaculado, segundo o texto dos quadrinhos, era exatamente o desejo de Kelsen, ou pelo menos criar uma “teoria imaculada do Direito”. A pergunta que não existe é: em que medida o Kelsen dos quadrinhos conseguiria evitar o erro que ele apontava nos juízes, e criar uma “teoria imaculada do direito”, se ele acreditava que o erro dos juízes era exatamente sentirem-se imaculados, mas no fundo renderem-se a uma instância “divina” na aplicação do direito? B) digo isto porque a pretensão de que Kelsen pudesse “criar”, na sua “imaginação”, uma “norma hipotética gnoseológica” que nos permitisse conhecer o direito (fazer “ciência do direito”) com a pureza de uma imaginação descontaminada pela humanidade, como se fosse um extraterrestre, é a pretensão de ser Deus. Isso me lembra Feuerbach, na sua “Essência do Cristianismo”: no fundo, parao autor dos quadrinhos, o erro de toda cultura anterior a este "novo Moisés" que é o Kelsen ali retratado seria a de projetar num Deus externo ao homem as perfeições que somente ao homem (figurado idealmente em Kelsen) cabem. O conhecimento do direito deveria vir, portanto, de uma “mente divina” como a de Kelsen, no sentido de uma mente que pudesse “imaginar”, (i.e., criar), livre de paixões e confusões, a baliza fundamental para todo o conhecimento (gnose) do direito posterior. Criaram, nestes quadrinhos, uma teoria pura do direito profundamente teológica: só que Kelsen, com sua infinita liberdade de “imaginar” a NFG, é Deus. Quem pensar o direito como pensa Kelsen, é puro. Quem pensar como pensam os “antigos”, é “impuro”. Isto é religião, da pior qualidade. Parece que Kelsen, aqui, encarna a figura do "deus-homem" de que trata Kant na sua obra "A Religião Dentro dos Limintes da Pura Razão". Ele dizia: "Na manifestação do deus-homem não é o que se apresenta aos nossos sentidos ou pode ser conhecido por experiência, senão o modelo santificante existente em nossa razão [de Kelsen, neste caso] o que constitui propriamente o objeto de fé santificante". Vale dizer, toda a pureza (descontaminação do "lodo" que nos faz juristas "impuros") estaria em render-se ao modelo santificante contido na Razão de Kelsen.
4. Ainda na primeira página, imputa-se aos “juízes antigos” três defeitos: sentiam-se imaculados, matavam a justiça aplicando a lei como revelação divina, eram super-heróis e confundiam esferas morais, políticos e jurídicos no mesmo “lodo”. Os legisladores, segundo os quadrinhos atribuem a Kelsen, erravam ao prestigiar o “espírito das leis”, este “velho fantasma do passado” que cuida das verdades por toda a eternidade. Na mesma página estão fundidas a teocracia, o leviatã hobbesiano, o romantismo jurídico do “espírito das leis” e o racionalismo iluminista. É o samba do crioulo doido: estes sistemas só ficaram confusos na cabeça dos maus juristas brasileiros. Lá na velha terra, onde eles foram criados, não somente eram absolutamente distintos, como eram incompatíveis entre si, e seus respectivos estudiosos e defensores tinham – e ainda têm - perfeita noção disso.
5. Na verdade, parece que o positivismo brasileiro (retratado nestes quadrinhos) colocou num mesmo caldeirão todos os filhos do iluminismo (excetuado, claro, o kelsenianismo, que também é filho do iluminismo, mas aqui é visto como uma nova religião) e os devorou antropofagicamente, apelando para a pureza da imaginação iluminada de Kelsen, este profeta possuidor da “pureza imaculada” que ele, segundo os quadrinhos, nega a quem não pense como ele (os juízes que se acreditavam “imaculados” são ridicularizados na primeira página, mas na página 6 o próprio Kelsen surge cercado da palavra “pureza” em vários formatos. Criou-se o verdadeiro “dogma da Imaculada Conceição de Kelsen”...
6. Dizer que Kelsen criou uma “teoria pura do saber” (gnose) e não uma “teoria do direito puro” é uma contradição com toda a crítica feita nas primeiras páginas, onde os juizes “antecessores” são ridicularizados exatamente porque, alegadamente, não conseguiam atinar com um “direito puro” e misturavam tudo no mesmo “lodo”. Ora, se não há um “direito puro”, mas apenas uma pura “gnose” do direito, então eles não podem jamais ser criticados por “misturarem” instâncias religiosas, sociológicas, morais, históricas ou qualquer outra em seus juízos jurídicos – porque eles estão produzindo “direito”, e não “ciência do direito”. Quem confundiu as instâncias foi o “quadrinheiro”...
7. Ora, se eu sou um extraterrestre e resolvo estudar as mulatas pelo mero deleite gnóstico, e então peço aos meus cientistas que imaginem uma “mulata ideal”, eu posso ter a absoluta certeza de que a minha “mulatologia” pode ser profundamente coerente do ponto de vista interno, mas que nenhum carioca jamais casaria com uma das “mulatas” que correspondesse a este modelo, porque os cientistas (todos os que eu conheço, pelo menos) têm um péssimo gosto para mulatas. Esta “norma mulatal hipotética” padeceria da “contradição tostines” (aqueles dos quais não se sabe se vendem mais porque são fresquinhos, ou se são fresquinhos porque vendem mais, lembra?). Vale dizer, para elaborar uma “norma fundamental mulatal” os cientistas teriam que estudar algumas mulatas antes de elaborar tal norma, mas eles não teriam como saber se alguém é mulata ou não antes da própria norma existir, portanto, eles nunca saberiam se as mulatas que permitiram a eles elaborar sua “norma de pureza” eram verdadeiras mulatas, senão depois de elaborar a “norma mulatal fundamental”. O nome deste vício de raciocínio é “petição de princípio”, que o autor dos quadrinhos não deve conhecer...
8. Vale dizer: como toda gnose, esta “teoria pura kelseniana” apresentada pelos quadrinhos é uma religião, aliás uma péssima religião, como toda gnose. Não preciso te ensinar, mas apenas te lembrar da estrutura básica de toda gnose: o “mundo” é ruim, é mau, mas guarda em si uma “fagulha” pura de bondade que os iluminados podem distinguir e anunciar para o mundo. Há religiões melhores. Embora Kelsen tenha sido um excelente lógico jurídico, insuperado neste campo muito estrito da ciência jurídica, ele cometeu uma falácia básica: a lógica é um excelente instrumento do pensamento, mas não é substrato ontológico, vale dizer: a realidade pode ser pensada logicamente, mas nunca pode ser substituída pela própria lógica. A lógica pode ser um grande instrumento para conversar sobre mulatas nos laboratórios, mas os lógicos jamais engendram lindas mulatas em laboratório, nem ao menos as conquistam.
9. Por fim, estes quadrinhos parecem muito mais uma apolgética religiosa do que divulgação científica. Transformar o velho Kelsen num ídolo religioso, no entanto, pode não ser uma boa ideia.
O link para os quadrinhos é http://ruadosbragas223.blogspot.com/2009/03/kelsen-os-quadrinhos-puros-do-direito.html
Li os tais quadrinhos e fiz as seguintes observações para o meu amigo:
1. A primeira folha, que inicia com “existia uma grande confusão entre os juristas dogmáticos” é muito engraçada, e mostra uma visão em pastiche do pensamento de Kelsen sobre a realidade que lhe precedeu, além de apontar os nossos próprios preconceitos pós-contemporâneos como “pelo menos isso era o que pensava Kelsen”.
2. Para começar, não havia nenhuma “confusão entre os juristas dogmáticos”, nem Kelsen pensava isto. Os juristas sabiam exatamente de onde partiam e onde chegavam. Seria uma imbecilidade de Kelsen não reconhecer a solidez do pensamento kantiano, ou mesmo do pensamento hegeliano, sobre o direito, e colocar tudo numa "geleia geral". Quem escreveu isso nunca leu, por exemplo, Agostinho ou Tomás de Aquino, que, embora profundamente religiosos, sempre souberam exatamente a diferença entre Revelação, direito natural e direito positivo. Eu iria mais longe: todo pensamento jurídico de alto nível, mesmo antes de Kelsen, sempre esteve perfeitamente consciente de seus próprios pressupostos e de suas próprias consequências, bem como dos limites daquilo que chamava de “jurídico” e do que chamava de “moral” e de “religião”. Apenas, por não partir de uma asséptica “norma hipotética gnoseológica imaginária”, chegavam a conclusões diferentes do que o próprio Kelsen chegou.
3. Aponto mais duas pasteurizações: segundo tais quadrinhos, “Kelsen pensava que os juízes se sentiam imaculados e acreditavam que não matavam a justiça aplicando a lei como revelação divina”. Ora, eu diria: a) ser imaculado, segundo o texto dos quadrinhos, era exatamente o desejo de Kelsen, ou pelo menos criar uma “teoria imaculada do Direito”. A pergunta que não existe é: em que medida o Kelsen dos quadrinhos conseguiria evitar o erro que ele apontava nos juízes, e criar uma “teoria imaculada do direito”, se ele acreditava que o erro dos juízes era exatamente sentirem-se imaculados, mas no fundo renderem-se a uma instância “divina” na aplicação do direito? B) digo isto porque a pretensão de que Kelsen pudesse “criar”, na sua “imaginação”, uma “norma hipotética gnoseológica” que nos permitisse conhecer o direito (fazer “ciência do direito”) com a pureza de uma imaginação descontaminada pela humanidade, como se fosse um extraterrestre, é a pretensão de ser Deus. Isso me lembra Feuerbach, na sua “Essência do Cristianismo”: no fundo, parao autor dos quadrinhos, o erro de toda cultura anterior a este "novo Moisés" que é o Kelsen ali retratado seria a de projetar num Deus externo ao homem as perfeições que somente ao homem (figurado idealmente em Kelsen) cabem. O conhecimento do direito deveria vir, portanto, de uma “mente divina” como a de Kelsen, no sentido de uma mente que pudesse “imaginar”, (i.e., criar), livre de paixões e confusões, a baliza fundamental para todo o conhecimento (gnose) do direito posterior. Criaram, nestes quadrinhos, uma teoria pura do direito profundamente teológica: só que Kelsen, com sua infinita liberdade de “imaginar” a NFG, é Deus. Quem pensar o direito como pensa Kelsen, é puro. Quem pensar como pensam os “antigos”, é “impuro”. Isto é religião, da pior qualidade. Parece que Kelsen, aqui, encarna a figura do "deus-homem" de que trata Kant na sua obra "A Religião Dentro dos Limintes da Pura Razão". Ele dizia: "Na manifestação do deus-homem não é o que se apresenta aos nossos sentidos ou pode ser conhecido por experiência, senão o modelo santificante existente em nossa razão [de Kelsen, neste caso] o que constitui propriamente o objeto de fé santificante". Vale dizer, toda a pureza (descontaminação do "lodo" que nos faz juristas "impuros") estaria em render-se ao modelo santificante contido na Razão de Kelsen.
4. Ainda na primeira página, imputa-se aos “juízes antigos” três defeitos: sentiam-se imaculados, matavam a justiça aplicando a lei como revelação divina, eram super-heróis e confundiam esferas morais, políticos e jurídicos no mesmo “lodo”. Os legisladores, segundo os quadrinhos atribuem a Kelsen, erravam ao prestigiar o “espírito das leis”, este “velho fantasma do passado” que cuida das verdades por toda a eternidade. Na mesma página estão fundidas a teocracia, o leviatã hobbesiano, o romantismo jurídico do “espírito das leis” e o racionalismo iluminista. É o samba do crioulo doido: estes sistemas só ficaram confusos na cabeça dos maus juristas brasileiros. Lá na velha terra, onde eles foram criados, não somente eram absolutamente distintos, como eram incompatíveis entre si, e seus respectivos estudiosos e defensores tinham – e ainda têm - perfeita noção disso.
5. Na verdade, parece que o positivismo brasileiro (retratado nestes quadrinhos) colocou num mesmo caldeirão todos os filhos do iluminismo (excetuado, claro, o kelsenianismo, que também é filho do iluminismo, mas aqui é visto como uma nova religião) e os devorou antropofagicamente, apelando para a pureza da imaginação iluminada de Kelsen, este profeta possuidor da “pureza imaculada” que ele, segundo os quadrinhos, nega a quem não pense como ele (os juízes que se acreditavam “imaculados” são ridicularizados na primeira página, mas na página 6 o próprio Kelsen surge cercado da palavra “pureza” em vários formatos. Criou-se o verdadeiro “dogma da Imaculada Conceição de Kelsen”...
6. Dizer que Kelsen criou uma “teoria pura do saber” (gnose) e não uma “teoria do direito puro” é uma contradição com toda a crítica feita nas primeiras páginas, onde os juizes “antecessores” são ridicularizados exatamente porque, alegadamente, não conseguiam atinar com um “direito puro” e misturavam tudo no mesmo “lodo”. Ora, se não há um “direito puro”, mas apenas uma pura “gnose” do direito, então eles não podem jamais ser criticados por “misturarem” instâncias religiosas, sociológicas, morais, históricas ou qualquer outra em seus juízos jurídicos – porque eles estão produzindo “direito”, e não “ciência do direito”. Quem confundiu as instâncias foi o “quadrinheiro”...
7. Ora, se eu sou um extraterrestre e resolvo estudar as mulatas pelo mero deleite gnóstico, e então peço aos meus cientistas que imaginem uma “mulata ideal”, eu posso ter a absoluta certeza de que a minha “mulatologia” pode ser profundamente coerente do ponto de vista interno, mas que nenhum carioca jamais casaria com uma das “mulatas” que correspondesse a este modelo, porque os cientistas (todos os que eu conheço, pelo menos) têm um péssimo gosto para mulatas. Esta “norma mulatal hipotética” padeceria da “contradição tostines” (aqueles dos quais não se sabe se vendem mais porque são fresquinhos, ou se são fresquinhos porque vendem mais, lembra?). Vale dizer, para elaborar uma “norma fundamental mulatal” os cientistas teriam que estudar algumas mulatas antes de elaborar tal norma, mas eles não teriam como saber se alguém é mulata ou não antes da própria norma existir, portanto, eles nunca saberiam se as mulatas que permitiram a eles elaborar sua “norma de pureza” eram verdadeiras mulatas, senão depois de elaborar a “norma mulatal fundamental”. O nome deste vício de raciocínio é “petição de princípio”, que o autor dos quadrinhos não deve conhecer...
8. Vale dizer: como toda gnose, esta “teoria pura kelseniana” apresentada pelos quadrinhos é uma religião, aliás uma péssima religião, como toda gnose. Não preciso te ensinar, mas apenas te lembrar da estrutura básica de toda gnose: o “mundo” é ruim, é mau, mas guarda em si uma “fagulha” pura de bondade que os iluminados podem distinguir e anunciar para o mundo. Há religiões melhores. Embora Kelsen tenha sido um excelente lógico jurídico, insuperado neste campo muito estrito da ciência jurídica, ele cometeu uma falácia básica: a lógica é um excelente instrumento do pensamento, mas não é substrato ontológico, vale dizer: a realidade pode ser pensada logicamente, mas nunca pode ser substituída pela própria lógica. A lógica pode ser um grande instrumento para conversar sobre mulatas nos laboratórios, mas os lógicos jamais engendram lindas mulatas em laboratório, nem ao menos as conquistam.
9. Por fim, estes quadrinhos parecem muito mais uma apolgética religiosa do que divulgação científica. Transformar o velho Kelsen num ídolo religioso, no entanto, pode não ser uma boa ideia.
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segunda-feira, 17 de outubro de 2011
A Igreja não precisa de reboque
Há uma piada interessante, que me faz lembrar a situação de determinados grupos “tradicionalistas” radicais e sua relação tempestuosa com a Igreja e principalmente com o timoneiro da Barca de Pedro, o Papa.
A piada é assim: dois pescadores cearenses estavam em alto mar com sua jangada, quando caiu uma violenta tempestade. Um transatlântico inglês estava passando pela região e detectou a precária jangada e os dois jangadeiros rotos sobre ela.
O capitão do Transatlântico não teve dúvidas: aquelas duas pessoas rotas naqueles paus mambembes, enfrentando aquela terrível tempestade em alto mar, só podiam ser náufragos. Manobrou seu enorme e moderno transatlântico até bem próximo deles e,m fazendo uso do megafone, gritou palavras de alento em inglês, enquanto lhes atirava uma corda para içá-los a bordo.
Os dois pescadores cearenses não entendiam uma palavra de inglês. Entreolharam-se diante daquele palavreado e daquela corda que tombou no convés da jangada, e o mais jovem comentou:
-Que será que este gringo quer?
O mais velho respondeu:
- Deve estar querendo que nós reboque o navio dele!
É assim que eu vejo determinados grupos cismáticos, radicais, que romperam com a Igreja e hoje recebem com certo ar de superioridade e desprezo a corda que lhes é atirada pelo Papa, capitão deste grande e invencível navio que é a Igreja. Não, a Igreja não precisa de reboque.
A piada é assim: dois pescadores cearenses estavam em alto mar com sua jangada, quando caiu uma violenta tempestade. Um transatlântico inglês estava passando pela região e detectou a precária jangada e os dois jangadeiros rotos sobre ela.
O capitão do Transatlântico não teve dúvidas: aquelas duas pessoas rotas naqueles paus mambembes, enfrentando aquela terrível tempestade em alto mar, só podiam ser náufragos. Manobrou seu enorme e moderno transatlântico até bem próximo deles e,m fazendo uso do megafone, gritou palavras de alento em inglês, enquanto lhes atirava uma corda para içá-los a bordo.
Os dois pescadores cearenses não entendiam uma palavra de inglês. Entreolharam-se diante daquele palavreado e daquela corda que tombou no convés da jangada, e o mais jovem comentou:
-Que será que este gringo quer?
O mais velho respondeu:
- Deve estar querendo que nós reboque o navio dele!
É assim que eu vejo determinados grupos cismáticos, radicais, que romperam com a Igreja e hoje recebem com certo ar de superioridade e desprezo a corda que lhes é atirada pelo Papa, capitão deste grande e invencível navio que é a Igreja. Não, a Igreja não precisa de reboque.
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domingo, 16 de outubro de 2011
A tradução da Apologética de Peter Kreeft
Este é um comentário sobre o livro "Manual de Apologética Cristã", de Peter Kreeft. Foi traduzido para o português por uma editora ligada a uma "igreja" evangélica, o que é de ser anotar, porque o autor, Peter Kreeft, é um excelente católico e profundo filósofo.
No entanto, a tradução em português possui alterações graves, que mudam o pensamento original de Peter Kreeft e fazem o livro atacar os católicos, o que seria contraditório para quem, como Peter Kreeft, é católico. Mas o editor brasileiro não hesita em publicar uma tradução falsa, infiel ao original, agressiva aos católicos.
Por exemplo, na página 25 da edição americana há o seguinte parágrafo:
"They also have a strong case in the press because the Church still
smells from the smoke of the Inquisition, when it made the very same
mistake contemporary liberals make: confusing heresy with heretics.
The spanish Inquisition wrongly destroyed heretics in order rightly to
destroy heresies; modern "liberals" wrongly loves heresies in order
rightly to love heretics.
Traduzido fielmente, ele ficaria assim:
"Eles também têm uma forte resistência na imprensa, porque a igreja ainda se ressente fortemente da fumaça da Inquisição, quando foi cometido o mesmo engano que os protestantes liberais de hoje fazem: confundir a heresia com os hereges. A inquisição espanhola erradamente destruiu hereges pela razão correta de combater as heresias. Os liberais de hoje amam equivocadamente as heresias pela razão correta de amar os hereges."
Bom, não se duvida que este texto é controverso, mesmo em inglês, já que, ao menos no caso da inquisição espanhola, a influência política foi bastante determinante nas condenações, muito mais do que as posturas propriamente eclesiais. Além disso, a propaganda protestante foi responsável pela deturpação da história, e valeu-se da mentira para tanto. É o que prova este excelente vídeo da BBC (insuspeita de catolicismo), no qual a pesquisa mais séria sobre a inquisição é muito bem explicada, que está disponível no seguinte link: http://gloria.tv/?media=177578
Mas este é apenas um comentário que eu quis fazer. O ponto fulcral é a deliberada alteração do texto na tradução brasileira. Aqui, ele foi deliberadamente traduzido de modo adulterado, assim:
"Precisamos ter cuidado com rótulos e posturas radicais e agressivas,
pois o cristianismo ainda exala o cheiro da fumaça da Inquisição, numa
época em que a Igreja Católica cometeu o mesmo erro dos liberais
contemporâneos: o erro de confundir as heresias com os hereges. A
Inquisição espanhola erroneamente queimou os hereges para destruir as
heresias. Os liberais modernos erroneamente amam as heresias com o
intuito correto de amar os hereges."
Como se pode ver, todo o sentido foi profundamente adulterado. Explico por pontos:
1. No texto original, dr. Peter menciona o "mistake of the
church" , incluindo, obviamente todos os cristãos. Como se sabe, enquanto a inquisição espanhola foi um órgão eclesial e político, com cuidados jurídicos, os protestantes costumavam levar seus próprios dissidentes à fogueira apenas por serem hereges, sem mais. Mas o tradutor pegou a referência que o dr. Peter fez sobre "a igreja" e traduziu como "a Igreja Católica". Para ter a redação que o texto tem em português, ele teria que ter a seguinte redação em inglês:
"we need to be careful with labels and radical attitudes, because CHRISTIANITY
still smells from the smoke of the inquisition, in a time when the CATHOLIC CHURCH made the very same mistake confusing heresy with heretics. The spanish Inquisition wrongly destroyed heretics in order rightly to destroy heresies; modern "liberals" wrongly loves heresies in order rightly to love heretics."
Mas a redação em inglês, das mãos do dr. Peter, é bem diferente desta,como vimos acima.
2. Assim, quando alguém lê o texto da edição brasileira, é induzido a pensar duas coisas que o texto do prof. Peter Kreeft jamais disse, acreditando, no entanto, que ele as tenha dito, já que não tem os orginais disponíveis para comparação. Ele é levado a crer que a Inquisição é um problema estritamente católico, e que a Igreja Católica esteve errada no particular. Bem, não só a Igreja não pode ser julgada, neste ponto específico, de uma forma tão desconectada do contexto (pois seria impossível dizer que a Igreja Católica errou quando julgou e entregou às mãos seculares os que espalhavam heresias, como uma maneira historicamente condicionada de proteger as almas dos seus filhos)como não há padrão para julgar senão dentro da própria doutrina da Igreja. Para os protestantes de então, a situação era muito mais grave: muitas pessoas foram liminarmente queimadas somente porque líderes protestantes discordavam delas e não queriam que elas pensassem como pensavam, como foi o caso dos calvinistas em Genebra e de Sir Thomas More na Inglaterra. Assim, a distorção na tradução é evidente, e feita, ao que paece, para atingir diretamente a Igreja Católica.
Há mais erros de tradução. Por exemplo, na página 29, a versão original em inglês diz:
"The object of faith means all things believed. For the Christian,
this means everything God reveals in the Bible; catholics include all
the creeds and universal binding teachings of the Church as well."
Quando traduzido, o texto em português maliciosamente ficou com a seguinte redação:
"O objeto da fé é tudo aquilo em que cremos. Para os cristãos
evangélicos, isso engloba tudo que Deus revelou na Bíblia".
Não se menciona a fé católica na tradução, alterando o texto original, que a menciona expressamente. E, em acréscimo, no lugar em que o texto original diz "para os Cristãos", o texto traduzido diz "para os cristãos 'evangélicos'".Isto tampouco está no texto original, é uma deturpação deliberada para atingir a fé católica.
É preciso, portanto, estar atento a estes ataques sutis à nossa fé. Neste caso específico, aplica-se o velho adágio italiano: "traduttore, traditore", quer dizer, o tradutor é um traidor.
A minha alegria por ver um livro tão consistentemente cristão, tão defensor da fé, ser traduzido por uma editora "evangélica" durou pouco. Cheguei a acreditar que o bom senso prevaleceria, que a verdadeira fé atrairia os corações sinceros. Mas adulterar deste jeito não pode ser acidental. Lamentável.
No entanto, a tradução em português possui alterações graves, que mudam o pensamento original de Peter Kreeft e fazem o livro atacar os católicos, o que seria contraditório para quem, como Peter Kreeft, é católico. Mas o editor brasileiro não hesita em publicar uma tradução falsa, infiel ao original, agressiva aos católicos.
Por exemplo, na página 25 da edição americana há o seguinte parágrafo:
"They also have a strong case in the press because the Church still
smells from the smoke of the Inquisition, when it made the very same
mistake contemporary liberals make: confusing heresy with heretics.
The spanish Inquisition wrongly destroyed heretics in order rightly to
destroy heresies; modern "liberals" wrongly loves heresies in order
rightly to love heretics.
Traduzido fielmente, ele ficaria assim:
"Eles também têm uma forte resistência na imprensa, porque a igreja ainda se ressente fortemente da fumaça da Inquisição, quando foi cometido o mesmo engano que os protestantes liberais de hoje fazem: confundir a heresia com os hereges. A inquisição espanhola erradamente destruiu hereges pela razão correta de combater as heresias. Os liberais de hoje amam equivocadamente as heresias pela razão correta de amar os hereges."
Bom, não se duvida que este texto é controverso, mesmo em inglês, já que, ao menos no caso da inquisição espanhola, a influência política foi bastante determinante nas condenações, muito mais do que as posturas propriamente eclesiais. Além disso, a propaganda protestante foi responsável pela deturpação da história, e valeu-se da mentira para tanto. É o que prova este excelente vídeo da BBC (insuspeita de catolicismo), no qual a pesquisa mais séria sobre a inquisição é muito bem explicada, que está disponível no seguinte link: http://gloria.tv/?media=177578
Mas este é apenas um comentário que eu quis fazer. O ponto fulcral é a deliberada alteração do texto na tradução brasileira. Aqui, ele foi deliberadamente traduzido de modo adulterado, assim:
"Precisamos ter cuidado com rótulos e posturas radicais e agressivas,
pois o cristianismo ainda exala o cheiro da fumaça da Inquisição, numa
época em que a Igreja Católica cometeu o mesmo erro dos liberais
contemporâneos: o erro de confundir as heresias com os hereges. A
Inquisição espanhola erroneamente queimou os hereges para destruir as
heresias. Os liberais modernos erroneamente amam as heresias com o
intuito correto de amar os hereges."
Como se pode ver, todo o sentido foi profundamente adulterado. Explico por pontos:
1. No texto original, dr. Peter menciona o "mistake of the
church" , incluindo, obviamente todos os cristãos. Como se sabe, enquanto a inquisição espanhola foi um órgão eclesial e político, com cuidados jurídicos, os protestantes costumavam levar seus próprios dissidentes à fogueira apenas por serem hereges, sem mais. Mas o tradutor pegou a referência que o dr. Peter fez sobre "a igreja" e traduziu como "a Igreja Católica". Para ter a redação que o texto tem em português, ele teria que ter a seguinte redação em inglês:
"we need to be careful with labels and radical attitudes, because CHRISTIANITY
still smells from the smoke of the inquisition, in a time when the CATHOLIC CHURCH made the very same mistake confusing heresy with heretics. The spanish Inquisition wrongly destroyed heretics in order rightly to destroy heresies; modern "liberals" wrongly loves heresies in order rightly to love heretics."
Mas a redação em inglês, das mãos do dr. Peter, é bem diferente desta,como vimos acima.
2. Assim, quando alguém lê o texto da edição brasileira, é induzido a pensar duas coisas que o texto do prof. Peter Kreeft jamais disse, acreditando, no entanto, que ele as tenha dito, já que não tem os orginais disponíveis para comparação. Ele é levado a crer que a Inquisição é um problema estritamente católico, e que a Igreja Católica esteve errada no particular. Bem, não só a Igreja não pode ser julgada, neste ponto específico, de uma forma tão desconectada do contexto (pois seria impossível dizer que a Igreja Católica errou quando julgou e entregou às mãos seculares os que espalhavam heresias, como uma maneira historicamente condicionada de proteger as almas dos seus filhos)como não há padrão para julgar senão dentro da própria doutrina da Igreja. Para os protestantes de então, a situação era muito mais grave: muitas pessoas foram liminarmente queimadas somente porque líderes protestantes discordavam delas e não queriam que elas pensassem como pensavam, como foi o caso dos calvinistas em Genebra e de Sir Thomas More na Inglaterra. Assim, a distorção na tradução é evidente, e feita, ao que paece, para atingir diretamente a Igreja Católica.
Há mais erros de tradução. Por exemplo, na página 29, a versão original em inglês diz:
"The object of faith means all things believed. For the Christian,
this means everything God reveals in the Bible; catholics include all
the creeds and universal binding teachings of the Church as well."
Quando traduzido, o texto em português maliciosamente ficou com a seguinte redação:
"O objeto da fé é tudo aquilo em que cremos. Para os cristãos
evangélicos, isso engloba tudo que Deus revelou na Bíblia".
Não se menciona a fé católica na tradução, alterando o texto original, que a menciona expressamente. E, em acréscimo, no lugar em que o texto original diz "para os Cristãos", o texto traduzido diz "para os cristãos 'evangélicos'".Isto tampouco está no texto original, é uma deturpação deliberada para atingir a fé católica.
É preciso, portanto, estar atento a estes ataques sutis à nossa fé. Neste caso específico, aplica-se o velho adágio italiano: "traduttore, traditore", quer dizer, o tradutor é um traidor.
A minha alegria por ver um livro tão consistentemente cristão, tão defensor da fé, ser traduzido por uma editora "evangélica" durou pouco. Cheguei a acreditar que o bom senso prevaleceria, que a verdadeira fé atrairia os corações sinceros. Mas adulterar deste jeito não pode ser acidental. Lamentável.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Em que creem os que creem
Eu estava agora no Shopping Iguatemi. Fui até lá para tentar assistir ao filme “homens e deuses”, que conta a história de religiosos trapistas que foram massacrados pelos muçulmanos na Argélia. Infelizmente o filme saíra de cartaz. Decepcionado, estava indo embora, quando resolvi passar na Livraria Cultura, para fazer uma coisa de que gosto muito, futucar livros.
Estava assim, concentrado e reclinado, mexendo nuns livros, quando encontrei um casal de professores meus, pessoas maravilhosas, profundos católicos. Após os cumprimentos de praxe, o professor, muito ligado às correntes mais liberais e “sociais” da Igreja, mostrou-me um livro: era o livro “em que creem os que não creem”, de Umberto Eco e Carlo Maria Martini. E me disse:
“Olha que bom livro! Pura doutrina Social da Igreja”. Você devia comprar.
E começou a ler a contracapa, que tratava de autotranscendência e sede de absoluto.
Fiquei calado. São tempos difíceis estes, e evito dar minha opinião sobre questões polêmicas, mesmo para quem se declara “católico”. É que as pessoas têm o péssimo hábito de ficar agressivas e retrucar com veemência quando você alega não concordar com alguém ou alguma coisa porque eles discordam da Igreja.
O professor perguntou:
Você sabe quem são estes? É o Umberto Eco e este outro aqui, o Martini, é um Cardeal!
Sim, eu sabia quem eram os dois, e minha opinião sobre os dois não era lá muito favorável. Limitei-me a dizer laconicamente:
Sim, eu os conheço.
O professor prosseguiu:
Você devia comprar este livro, é muito interessante, temos que dialogar, romper nosso isolamento, saber o que creem os que não creem, para arejar a Igreja, promover o cristianismo, romper nosso fechamento!
Eu realmente não queria dar minha opinião, mas ele insistia muito fortemente.
Olha – eu disse, medindo e pesando as minhas palavras – eu admiro muito a sua fé. - Tenho dificuldade de lidar com a minha própria, que é fininha como uma casca de ferida. Só olhar este tipo de livro já me dá uma grande ansiedade.
A professora, esposa do professor, que até então estivera olhando a estante à minha frente, ouviu só o final da minha frase e perguntou:
Ah, você está ansioso para ler o livro?
Ainda hesitando com as palavras, mas com o dever de sinceridade, respondi, com muita cautela:
Não, senhora, na verdade a ansiedade é para não ler. Este tipo de livro me deixa muito angustiado.
Você não tem curiosidade de conhecer em que creem os que não creem?
Não – respondi eu. - Na verdade, eu sei exatamente em que creem os que não creem. Eu era um deles até pouco tempo. Interessa-me agora saber exatamente em que creem os que creem, para que eu próprio possa ser um bom cristão.
A nossa conversa acabou aí, entre sorrisos amarelos de ambos os lados.
Estava assim, concentrado e reclinado, mexendo nuns livros, quando encontrei um casal de professores meus, pessoas maravilhosas, profundos católicos. Após os cumprimentos de praxe, o professor, muito ligado às correntes mais liberais e “sociais” da Igreja, mostrou-me um livro: era o livro “em que creem os que não creem”, de Umberto Eco e Carlo Maria Martini. E me disse:
“Olha que bom livro! Pura doutrina Social da Igreja”. Você devia comprar.
E começou a ler a contracapa, que tratava de autotranscendência e sede de absoluto.
Fiquei calado. São tempos difíceis estes, e evito dar minha opinião sobre questões polêmicas, mesmo para quem se declara “católico”. É que as pessoas têm o péssimo hábito de ficar agressivas e retrucar com veemência quando você alega não concordar com alguém ou alguma coisa porque eles discordam da Igreja.
O professor perguntou:
Você sabe quem são estes? É o Umberto Eco e este outro aqui, o Martini, é um Cardeal!
Sim, eu sabia quem eram os dois, e minha opinião sobre os dois não era lá muito favorável. Limitei-me a dizer laconicamente:
Sim, eu os conheço.
O professor prosseguiu:
Você devia comprar este livro, é muito interessante, temos que dialogar, romper nosso isolamento, saber o que creem os que não creem, para arejar a Igreja, promover o cristianismo, romper nosso fechamento!
Eu realmente não queria dar minha opinião, mas ele insistia muito fortemente.
Olha – eu disse, medindo e pesando as minhas palavras – eu admiro muito a sua fé. - Tenho dificuldade de lidar com a minha própria, que é fininha como uma casca de ferida. Só olhar este tipo de livro já me dá uma grande ansiedade.
A professora, esposa do professor, que até então estivera olhando a estante à minha frente, ouviu só o final da minha frase e perguntou:
Ah, você está ansioso para ler o livro?
Ainda hesitando com as palavras, mas com o dever de sinceridade, respondi, com muita cautela:
Não, senhora, na verdade a ansiedade é para não ler. Este tipo de livro me deixa muito angustiado.
Você não tem curiosidade de conhecer em que creem os que não creem?
Não – respondi eu. - Na verdade, eu sei exatamente em que creem os que não creem. Eu era um deles até pouco tempo. Interessa-me agora saber exatamente em que creem os que creem, para que eu próprio possa ser um bom cristão.
A nossa conversa acabou aí, entre sorrisos amarelos de ambos os lados.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Acusações genéricas à Igreja Católica
Um colega de outro Estado, aqui no órgão onde eu trabalho, vem colocando na lista eletrônica de discussão, sistematicamente, emails com destino a todos os membros do órgão, agredindo com inverdades a Igreja Católica.
Quero deixar registrado aqui a última resposta que encaminhei à discussão, sem identificar os interlocutores, mas porque pode ser útil a quantos cristãos se vejam na mesma posição. Respondi assim:
Criticar é sempre bom, desde que respeitadas a verdade, a lealdade e a pluralidade da sociedade brasileira, bem como a pertença de fé do outro.
Assim, atacar a Igreja Católica com inverdades e imprecisões, contra sua Santa Sé, no Vaticano, é atacar os católicos, e foi isto que esta notícia distorcida que você divulgou fez, sejam quais sejam os motivos por trás dela.
Quanto à informação de que a visita do Papa foi "custeada pelo Estado espanhol, com arrocho dos Trabalhadores daquele país", tampouco é verdadeira. A visita do Papa, que é chefe de Estado com o qual a Espanha mantém boas relações diplomáticas, deu tanta despesa quanto a visita de qualquer chefe de Estado estrangeiro, contra os quais eu nunca vi ninguém se levantar em protestos. As atividades do Papa na Jornada Mundial da Juventude em Madri, que tinham cunho estritamente religioso, foram integralmente custeadas pelo Povo de Deus, e os dois milhões de peregrinos que para lá se dirigiram hospedaram-se, comeram e beberam e renderam muitos milhões de euros à estagnada economia espanhola. Não houve um centavo de prejuízo a nenhum "pobre trabalhador oprimido", ao contrário, a injeção de 160 milhões de euros numa economia espanhola à beira da falência, quantia que superou infinitamente qualquer gasto estatal espanhol, além da divulgação turística de Madri nos quatro cantos do mundo e a criação de inúmeros empregos, temporários e definitivos. O balanço oficial católico está divulgado jornalisticamente no seguinte endereço: http://agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=87073. Mas claro que isso irritou os inimigos da Igreja, e, diante dos fatos inatacáveis, só resta inventar versões. A responsabilidade pela invenção certamente é de quem inventa, mas cabe-nos o cuidado de checar sua veracidade antes de divulgá-las publicamente em rede estatal como esta.
Quanto à organização estatal argentina, estou certo de que a sua preocupação é sincera, mas também creio que este é um problema que envolve dois grupos interessados, os argentinos, que moram e custeiam aquele país democrático, e os católicos, que pertencem à Santa Madre Igreja que se relaciona deste ou daquele modo com o Estado argentino. Ambos são grupos formados por gente grandinha e que sabe se cuidar.
Essa história de "erros históricos do Vaticano", assim no genérico, me desculpe, é cantilena velha. Propaganda antieclesial e ofensiva. Por isso, é sempre bom que apontemos concretamente: 1) de quais "erros " estamos acusando a Igreja, e 2) com qual objetivo, e 3) como ela deveria ter se comportado num determinado caso histórico, bem como 4) qual o padrão de julgamento que estamos usando para comparar. Porque atacar o Vaticano genericamente é atacar a fé alheia, e atacar a fé alheia é sempre complicado - muito mais quando eventuais acusações são abstratas ou gratuitas, ou envolvem distorções ou inverdades. Assim, apenas peço que você cheque adequadamente a fonte das informações antes de colocar na rede, porque esta "missão" de "desmistificar o Vaticano" que você se atribui pode ofender a quem tem a fé católica, se não for feita com muito cuidado e responsabilidade. Pode soar como mero preconceito gratuito contra os católicos, veiculado em lista eletrônica de Estado brasileira.
Quanto ao tamanho de Deus e a relação d'Ele com a Santa Madre Igreja, estou certo de que isto é um problema de fé de cada um. Você é livre para crer no que quiser. Eu também. E a fé deve respeitar-se mutuamente, por isso deixo de entrar em tal discussão.
Tenho você nas minhas orações. Mas não vou entrar em debates sobre o particular.
Abraços do amigo,
Quero deixar registrado aqui a última resposta que encaminhei à discussão, sem identificar os interlocutores, mas porque pode ser útil a quantos cristãos se vejam na mesma posição. Respondi assim:
Criticar é sempre bom, desde que respeitadas a verdade, a lealdade e a pluralidade da sociedade brasileira, bem como a pertença de fé do outro.
Assim, atacar a Igreja Católica com inverdades e imprecisões, contra sua Santa Sé, no Vaticano, é atacar os católicos, e foi isto que esta notícia distorcida que você divulgou fez, sejam quais sejam os motivos por trás dela.
Quanto à informação de que a visita do Papa foi "custeada pelo Estado espanhol, com arrocho dos Trabalhadores daquele país", tampouco é verdadeira. A visita do Papa, que é chefe de Estado com o qual a Espanha mantém boas relações diplomáticas, deu tanta despesa quanto a visita de qualquer chefe de Estado estrangeiro, contra os quais eu nunca vi ninguém se levantar em protestos. As atividades do Papa na Jornada Mundial da Juventude em Madri, que tinham cunho estritamente religioso, foram integralmente custeadas pelo Povo de Deus, e os dois milhões de peregrinos que para lá se dirigiram hospedaram-se, comeram e beberam e renderam muitos milhões de euros à estagnada economia espanhola. Não houve um centavo de prejuízo a nenhum "pobre trabalhador oprimido", ao contrário, a injeção de 160 milhões de euros numa economia espanhola à beira da falência, quantia que superou infinitamente qualquer gasto estatal espanhol, além da divulgação turística de Madri nos quatro cantos do mundo e a criação de inúmeros empregos, temporários e definitivos. O balanço oficial católico está divulgado jornalisticamente no seguinte endereço: http://agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?id=87073. Mas claro que isso irritou os inimigos da Igreja, e, diante dos fatos inatacáveis, só resta inventar versões. A responsabilidade pela invenção certamente é de quem inventa, mas cabe-nos o cuidado de checar sua veracidade antes de divulgá-las publicamente em rede estatal como esta.
Quanto à organização estatal argentina, estou certo de que a sua preocupação é sincera, mas também creio que este é um problema que envolve dois grupos interessados, os argentinos, que moram e custeiam aquele país democrático, e os católicos, que pertencem à Santa Madre Igreja que se relaciona deste ou daquele modo com o Estado argentino. Ambos são grupos formados por gente grandinha e que sabe se cuidar.
Essa história de "erros históricos do Vaticano", assim no genérico, me desculpe, é cantilena velha. Propaganda antieclesial e ofensiva. Por isso, é sempre bom que apontemos concretamente: 1) de quais "erros " estamos acusando a Igreja, e 2) com qual objetivo, e 3) como ela deveria ter se comportado num determinado caso histórico, bem como 4) qual o padrão de julgamento que estamos usando para comparar. Porque atacar o Vaticano genericamente é atacar a fé alheia, e atacar a fé alheia é sempre complicado - muito mais quando eventuais acusações são abstratas ou gratuitas, ou envolvem distorções ou inverdades. Assim, apenas peço que você cheque adequadamente a fonte das informações antes de colocar na rede, porque esta "missão" de "desmistificar o Vaticano" que você se atribui pode ofender a quem tem a fé católica, se não for feita com muito cuidado e responsabilidade. Pode soar como mero preconceito gratuito contra os católicos, veiculado em lista eletrônica de Estado brasileira.
Quanto ao tamanho de Deus e a relação d'Ele com a Santa Madre Igreja, estou certo de que isto é um problema de fé de cada um. Você é livre para crer no que quiser. Eu também. E a fé deve respeitar-se mutuamente, por isso deixo de entrar em tal discussão.
Tenho você nas minhas orações. Mas não vou entrar em debates sobre o particular.
Abraços do amigo,
terça-feira, 6 de setembro de 2011
O indiculus - resumo livre
Alguns, autodeclarando-se católicos, alegam concordar com a Santa Sé quanto à condenação dos pelagianos, mas censuram alguns mestres (em especial Santo Agostinho) como se houvessem exagerado em suas posições, no que diz respeito à Graça.
Daí a necessidade que teve a Santa Sé de publicar o indiculus (breve índice) sobre as questões pertinentes à Graça, para que se saiba qual é a verdadeira doutrina católica no particular.
O indiculus (cerca do século VI) foi atribuído inicialmente ao Papa Celestino I, mas hoje a tendência da historiografia é de atribuí-lo a São Próspero de Aquitânia. No entanto, quem quer que tenha sido o seu redator, o indiculus foi aprovado por sucessivos Papas como expressão autêntica da fé da Igreja, inclusive – e expressamente – numa carta do Papa Hormisdas ao Bispo africano Possessor, de 13.08.520.
Em apertadíssima suma, eis o que trata o indiculus:
1. Ninguém é bom por si mesmo, senão na medida em que Aquele que é o único Bom lhe der a participação de si (Mt 19. 17; Mc 10, 18; Lc 18, 19) Os que pensam que podem, por mérito próprio, ser justos, sem levar em consideração Aquele de quem recebem diariamente a Graça, e confiam poder conseguir grandes coisas sem Deus, desses certamente não podemos esperar algo de bom daqui para a frente.
2. Ninguém é capaz de resistir às concupiscências da carne ou às tentações do Diabo se não receber de Deus a ajuda diária na perseverança para a boa conduta.
3. Mesmo depois do batismo, o Senhor sabe que poderemos pecar de novo, reservou muitos meios para reerguer-nos, oferecendo-nos diariamente remédios sem cujo auxílio e sustentação jamais poderemos vencer os erros humanos. É de fato inevitável que, se vencemos com seu auxílio, sejamos irremediavelmente vencidos sem ele (Inocêncio I).
4. Só se faz bom uso do livre arbítrio pela graça de Cristo. Inocêncio I diz: “foi precisamente a liberdade que enganou o primeiro homem, que caiu no pecado por presunção, após ter afrouxado com excessiva indulgência os freios. E do estado de pecado não se poderia sair sem que a Providência o tivesse restituído ao primitivo estado de liberdade, com a regeneração proveniente do advento de Cristo.
5. Todo o empenho, todas as obras e méritos dos santos devem ser referidas à glória e louvor de Deus. Ninguém pode agradar a Deus senão por aquilo que Ele mesmo lhes dá. Papa Zózimo: “Não se deve exaltar a liberdade do arbítrio humano. A vontade para o bem é preparada pelo Senhor. Ele move os corações dos Seus filhos com paternais inspirações, para que façam algum bem. Em cada bem movimento da vontade humana, tem mais força o Seu auxílio.
6. De tal modo Deus age no coração dos homens e no próprio livre arbítrio que um santo pensamento, um piedoso propósito e todo movimento de boa vontade vêm de Deus, porque por Ele podemos algum bem, mas sem Ele nada podemos, Jo 15, 5. Diz o Papa Zózimo: “Não há tempo em que não necessitamos da ajuda de Deus. Em todos os nossos atos, dúvidas, pensamentos e sentimentos devem ser invocado nosso auxiliador e protetor. É soberba presumir algo de si.
7. A Santa Sé reconhece o Concílio de Cartago.
8. Os Padres ensinaram-nos a repelir a nefasta novidade pelagiana, ensinando-nos a atribuir à Graça de Cristo tanto o início da boa vontade quanto o aumento dos louváveis esforços e a perseverança neles até o fim. Consideremos o mistério das orações sacerdotais, sob a luz do princípio lex orandi, lex credendi. Quando se pede a clemência divina (para os hereges, cismáticos, infiéis, judeus, pecadores e catecúmenos) estas graças não são pedidas por mera formalidade, nem inutilmente. Deus se digna atrair a si muitíssimos homens, arrancando-os do poder das trevas para o Reino de Amor. Isto é de tal modo obra divina que se dá louvor e ação de graças a Deus por elas.
9. É assim que a Igreja age com os jovens e crianças que serão batizados. Não chegam à fonte da vida sem primeiro passar por um exorcismo, para liberar-se do “Príncipe deste mundo”, entregando-se a alma assim resgatada às mãos daquele que “venceu o homem forte”.
Professamos que Deus é o autor de todas as boas obras e disposições da alma e de todos os esforços e virtudes com que, desde o início da fé, tendemos para Deus, e não duvidamos que todos os méritos do homem são precedidos pela Graça daquele por quem começamos a querer e a fazer algum bem.
Por este auxílio o livre arbítrio não é tirado, mas libertado da cegueira, do desvio, das patologias e da imprudência. Deus, na sua infinita bondade, quer que sejam méritos nossos o que são dons seus. Dar-nos-á recompensas eternas por aquilo que ele mesmo nos deu praticar.
Deus não quer que em nós fique inativo aquilo que Ele nos deu para ser posto em ato, e não negligenciarmos. Se fraquejamos, recorramos a Ele, que salva a ruína de nossas vidas. Peçamos a Ele que nos livre do mal!
Para confessar a Graça de Deus, cremos, pois, ser suficiente o que nos ensinam os escritos da Santa Sé, e quem sustenta no contrário não pode se declarar católico. (Indiculus, resumo livre).
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